conto | OLHOS CURIOSOS

Tempo nublado. Sussurros. Uma fresca brisa percorre o ar. Olhos curiosos, mas desta vez não eram os dela, e sim os de algo que a observava nas sombras.
Calafrio – devia ter pego o casaco marfim antes de sair de casa, ela pensou. – Mas a sensação ia além… era de que mesmo agasalhada continuaria tremendo. Talvez não fosse o frio o responsável por aquilo, e sim o medo. Medo daquilo do qual precisava se esconder, sem saber se era ou não real e nem mesmo o que era exatamente.
Suas angústias? Seus fantasmas? Suas desilusões? Ela não podia responder. Não sabia responder. Não queria responder. Melhor deixar de lado, fingir que não percebia o que estava acontecendo. Melhor se deixar ser observada, mesmo sem reconhecer seu observador. Ele devia gostar do que via. Mas ela certamente não demonstrava muita euforia por tal atenção.
Seria melhor se pudesse fugir, achar um bom lugar para se esconder. Um lugar longe de olhos curiosos e de memórias indesejadas. Um lugar onde pudesse se afastar de si mesma. Mas sempre que tentava algo do tipo acabava mergulhando mais ainda em sua própria presença. Um menino que nunca cresceu já bem sabia o quão inútil era tentar fugir de sua própria sombra. Uma adulta como ela não poderia deixar de ter a mesma sensatez quanto a essa questão.
No fim das contas todas as trilhas levam para o mesmo lugar. E é impossível deixar de enfrentar nossos medos em alguma destas estradas. Uma hora ou outra eles aparecem no meio do caminho, dentre as árvores, a observar…
Então ela cruzou os braços a fim de aquecer um pouco o corpo, mas sentiu subir mais um arrepio na nuca. Deixem que observe – pensou –, isso é o máximo que pode fazer. E seguiu seu caminho.

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resenha | A LONGA VIAGEM A UM PEQUENO PLANETA HOSTIL

Terminei hoje de ler o livro A LONGA VIAGEM A UM PEQUENO PLANETA HOSTIL, de Becky Chambers, e posso afirmar que esta foi uma das ‘longas viagens’ mais incríveis e emocionantes que tive nas minhas últimas experiências literárias.
Primeiramente preciso dizer que fiquei tocada com o fato de que a autora conseguiu lançar a primeira edição do livro através de ajuda de terceiros em um site de financiamento coletivo. Ela ralou, apostou no sonho, e fez o livro acontecer. Agradeço a ela pela persistência, e também as pessoas que ajudaram neste início, pois é por causa delas que hoje posso ter a experiência de pegar este livro nas mãos e dar a ele todo o carinho que merece.
Enfim, falando um pouco sobre a escrita de Becky, me apaixonei completamente! A mente dela é incrivelmente criativa! Obviamente que a ajuda técnica de seus pais na área espacial ajudou a criar toda a ambientação e detalhes acurados para a história, mas o mérito da ideologia da obra é todo da Becky, e por isso eu a admiro muito. Adoraria passar um tempo dentro da sua mente para conhecer suas mais loucas ideias.
Por se tratar de uma ficção científica sobre uma realidade completamente nova, mesmo que carregada de algumas teorias conhecidas universalmente no âmbito espacial, foi preciso muito cuidado na construção desta história, uma vez que ela corria um risco alto de se tornar maçante e confusa. Becky realizou esta tarefa com maestria e elegância! O universo que ela criou é completamente verossímil dentro de seu âmbito, e as explicações de todas as novas realidades as quais vamos sendo apresentados, são orgânicas e se encaixam perfeitamente com o contexto e enredo das cenas. Está tudo no lugar, com fluidez e sem ser cansativo ou estranho. A autora nos faz sentir como se nós mesmos já habitássemos tal realidade. Como se fôssemos parte integrante deste ecossistema espacial e desta Comunidade Galáctica.
Além disso, as descrições de seus personagens (tanto físicas como emocionalmente), assim como dos cenários nos quais habitam, foram feitas na medida, sem deixar lacunas que poderiam vir a causar confusões na construção da cena, nem mesmo muito extensas, que poderiam tornar a leitura enfadonha. Pelo contrário, o ritmo da leitura segue constante e nosso interesse pela história só evolui a cada página virada.
Ainda falando dos personagens de Becky, estou completamente apaixonada por eles! A construção que Becky fez de cada um foi incrível! Não apenas os personagens são maravilhosos, no sentido de que eu gostaria de ser amiga de todos eles, mas eles também são muito bem caracterizados, no sentido de complexidade. A autora conseguiu construir distintas personalidades, sem incoerências no meio do enredo. Cada um dos tripulantes permanece fiel àquilo ao qual se propõem no início do livro. Não há falhas de caráter ao longo da história, onde percebamos uma mudança brusca de personalidade em algum deles, que não faça sentido. Afinal, tudo na escrita de Becky se encaixa, e tem algum motivo.
De todos os tripulantes da Andarilha, meus preferidos são Kizzy, Jenks e Dr. Chef. Os três, juntos com os demais, formam uma família excêntrica e bem estranha, mas que se complementam e se amam do seu jeito. Adoro todos, mas estes três são os com o coração mais puro que pude notar ao longo da história.
Por fim, é importante destacar que, mesmo se tratando de uma história fictícia em um universo irreal, todos os dilemas abordados ao longo do livro são os mesmos pelos quais passamos na vida real: preconceito racial, sexual, acordos internacionais entre nações, amores proibidos, etc. Muito do que acontece em A LONGA VIAGEM pode ser facilmente traduzido para a nossa realidade, o que assusta um pouco e faz a gente pensar e repensar alguns conceitos pré-estabelecidos. Além de ter criado um livro excepcionalmente belo e mágico, de uma leitura fácil e fluida, Becky ainda o fez ser filosófico. Que mulher!
Quem ainda não leu ou estava na dúvida se valia a pena, por favor, arrumem uma cópia dele imediatamente!

a longa viagem

conto | THE BOTTLE

Matheus andava vagarosamente até a beira da praia, contando cada passo que dava, como se seguindo as coordenadas de um mapa do tesouro. Chegando à areia, começou a deixar suas pegadas marcadas no chão fofo.
Quando se encontrou diante do mar, deixou primeiramente que as ondas afogassem seus pequeninos pés, antes de olhar para a garrafa em suas mãos e decidir jogá-la na água. Sua intenção naquele momento ia além de verificar a temperatura da água. Era mais um instante de conexão com aquele oceano imenso. Como se através do toque da água em seus pés ele estivesse pedindo silenciosamente que o mar levasse sua carta engarrafada para um lugar seguro, para alguém que a protegesse com o mesmo cuidado que ele a escrevera. Assim sendo, lançou a garrafa ao mar e a observou sendo levada pela maré cada vez mais para longe.
Alguns dias depois, não muito longe dali, ainda na mesma costa, Melissa catava conchinhas na areia molhada da praia. Seus castanhos cachos dançavam junto ao vento e sua saia rosa girava como a de uma bailarina em uma caixinha de música. Entre conchas e pedrinhas coloridas, Mel acabou encontrando um objeto diferente, maior e muito mais interessante. Era uma garrafa de vidro lacrada com uma rolha de vinho, e carregava carinhosamente em seu interior um papel enrolado. Com toda sua delicadeza ela tomou o objeto translúcido na mão e correu para a sombra mais próxima, para poder explorar seu mais novo achado.
Tendo aberto a garrafa e retirado lá de dentro a misteriosa carta, começou a lê-la, buscando matar sua curiosidade. Pôde, assim, perceber que não se tratava de uma carta, mas sim de um poema destinado “à quem encontrar”. A letra tremida e amadora era um tanto difícil de ser decifrada, mas aos poucos Mel acabou acostumando-se a ela, e conseguiu ler o conteúdo que preenchia aquele pequeno pedaço de papel.

Querido mar
Redonda Lua
Ardente Sol
Comprida rua
Sorriso aberto
Abraço apertado
Olhar sincero
Segredo guardado
Joguei na água um baú
Que carregava meu tesouro
Quando abrir vai descobrir
Que lá dentro não tem ouro
Tem palavras sinceras
De uma pequena poesia
Espero que bela
Para lhe fazer companhia
Guarde com carinho
Este poema que achou
Para quando me encontrar
Dizer se você gostou

Realizando o pedido do escritor do poema, Melissa guardou aquele papel e durante vinte longos anos ele permaneceu escondido no fundo falso de uma de suas caixas de joias.
Até que um dia, querendo agradar sua esposa, o marido de Mel começou a arrumar o quarto e acabou acidentalmente deixando uma das caixas de joias dela cair no chão. Coincidentemente era a caixa favorita de Mel, exatamente na qual ela havia mantido em segredo por todos aqueles anos a carta que achara na beira da praia quando ainda era criança.
Vendo aquele papel jogado no chão o marido de Mel o pegou na mão, curioso, e rapidamente reconheceu a caligrafia da letra e as palavras ali descritas. Era o poema que ele próprio havia escrito quando criança.
Ficou surpreso por diversos motivos naquele momento, primeiramente por ter reencontrado a carta após tanto tempo, segundo por ela estar sendo guardada por sua própria esposa, e terceiro por pensar que a pessoa que encontrou a sua carta tantos anos atrás acabou se tornando a pessoa mais importante de sua vida. Era como uma história escrita pelo destino.
Ao chegar em casa Melissa encontrou Matheus na sala, sentado em uma das poltronas, segurando um pequeno papel amarelado nas mãos. Ela reconheceu de imediato a carta e ficou um tanto surpresa por ela estar com Matheus:
– Você andou mexendo nas minhas coisas? – questionou ela.
– Você gostou? – perguntou ele.
– De você ter mexido nas minhas coisas?
– Da carta…
– Bem, claro que sim, afinal eu a encontrei há muito tempo atrás dentro de uma garrafa na costa da praia. Gosto de pensar que é meu tesouro particular. Mas não entendo como você achou.
– Isso não importa, o que importa é saber se você gostou da carta que eu escrevi.
Mel não entendera de imediato, mas após alguns instantes de silêncio enquanto encarava Matheus, a ficha finalmente caiu e ela entendeu que seu marido era o dono daquela bagunçada caligrafia e daquelas belas palavras que sempre lhe acalentaram a alma.
Sorrindo, e sem precisar falar coisa alguma, Melissa correu até ele e se jogou em seus braços, sabendo que a vida tinha lhes unido por algum motivo, e que o destino escrevera suas histórias há muitos anos, com os grãos de areia da praia e com o sal das ondas do mar.

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conto | WIND

O vento intenso soprava em suas costas, fazendo os cacheados cabelos castanhos voarem para frente, cobrindo sua visão. As pequenas folhas caídas no chão apostavam corrida a seus pés, uma querendo ser mais rápida do que a outra na ultrapassagem. E apesar do frio que congelava a ponta de seu nariz e por vezes adentrava pelas mangas de seu casaco, ela seguiu firme para o seu destino, recusando a forte vontade de voltar para casa e esconder-se embaixo das cobertas.
Ao passar por um pequeno parquinho pôde ver, mesmo que com dificuldade devido aos fios de cabelo que serpenteavam na frente de seu rosto, a silhueta de algumas crianças brincando – onde estaria a responsabilidade daquelas mães no momento em que deixaram seus filhos saírem naquele frio? – e pôde também ouvir suas doces risadas seguidas de pérolas como, “É um furacão! É um furacão!” e “Olha só o meu poder! Eu sou o rei do vento!” – crianças sempre falavam com exclamações, pensou. Seu lábio inferior se curvou levemente para cima ao ouvir tais sentenças, enquanto se encolhia mais um pouco sob as camadas de lã que vestia.
Onde havia deixado seus próprios poderes mutantes da época da escola e por onde andava sua risada infantil, ela se questionava enquanto as vozes das crianças iam ficando cada vez mais longe, constituindo assim uma metáfora tangível sobre o abandono de sua própria criança interior, a qual ela ia deixando cada vez mais para trás.
Entrou, enfim, em uma farmácia, agradecida pelo reconfortante calor do ambiente e de repente recobrando a consciência e lembrando o que tinha ido fazer ali. Teve uma inicial dificuldade em achar a prateleira correta, uma vez que nunca antes precisara procurá-la. Assim que avistou o que queria, sorrateiramente deslizou para a cestinha azul, que havia pego ao entrar no estabelecimento, três caixas de marcas diferentes, pois nunca se podia confiar em um único teste de gravidez…
Indo embora, fazendo o caminho inverso ao que havia lhe trazido até ali, acabou se dando conta de que a resposta para suas dúvidas de alguns minutos atrás era bem mais simples do que pensava: ela havia deixado sua infância no mesmo lugar onde assumira a responsabilidade de trazer à vida e carregar dentro de si outra criança que não mais ela própria. Quando adquiriu a possibilidade de ser mãe.

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conto | TEMPOS DE CRIANÇA

Eu estava concentrada na janela do ônibus, pensando em todas as coisas que precisaria fazer naquela semana, e buscando meios de evitar qualquer problema que surgisse no meio do caminho. Minha cabeça não conseguia parar por um segundo, eram tantas informações para processar, e tão pouco tempo para fazer tudo… Aquilo era estressante. Então desviei meu olhar da janela, tentando ao mesmo tempo desviar meus pensamentos de todas aquelas obrigações. Queria apenas fugir por um momento.
Quando olhei pra frente, vi a pequena mão de uma menina, nos seus meros 10, 11 anos talvez, com as unhas pintadas de verde escuro coberto de glitter prateado. Uma ou duas estavam descascadas. Aquilo me levou em uma viagem ao passado…
Voltei no tempo, quando eu tinha meus 10, 11 anos, e lembrei de como costumava eu própria pintar as unhas de verde, amarelo, laranja, tudo coberto de glitter, estrelas e corações que descascavam no dia seguinte. Era uma diversão ter as unhas como arco-íris.
Lembrei a forma como me aventurava pela caixinha de esmaltes que minha mãe tentava, sem sucesso, esconder de mim. O cheiro da acetona me veio à mente naquele momento, e era como se eu realmente estivesse de volta… de volta aos meus tempos de criança. Era tão bom, tão confortável, tão simples e parecia tão certo.
Fui puxada para a realidade quando o ônibus parou e a jovem menina desceu. Mas ainda assim fiquei perdida na minha nostalgia, querendo poder viver de novo àquela época em que tudo se resumia a meia dúzia de esmaltes coloridos e um punhado de glitter.
Eu sabia que o passado não voltava, a não ser em forma de lembranças. E também tinha consciência de que minha semana ainda seria atarefada, cheia de compromissos e ocupações que me fariam, novamente, deixar aquelas unhas verdes de lado. Mas por ora eu preferia ficar ali dentro daquele ônibus, relembrando momentos bons da minha infância, e dizendo a mim mesma que todos crescemos, mas isso não significa que como adultos precisamos esquecer as crianças que fomos um dia.

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