conto | Devorador de almas

Poderíamos dizer que ela saíra do século XIX, se não fosse pelo espaço de tempo que a prendia em pleno século XXI.
Era uma bela moça, seus cabelos negros como o céu em dia de lua cheia, caíam por seu ombro, e seguiam escorrendo até o final de sua cintura. A boca rosada, fina e bem delineada, que havia herdado da mãe, lhe rendia grandes elogios. A pele branca como papel e macia como seda, jamais tivera qualquer cicatriz. Os cílios que pendiam por sobre seus olhos castanhos eram grandes e espessos.
Certo dia, Josephine, como era chamada, foi fazer uma viagem para o campo, devido a um período de férias, no qual a cidade simplesmente esvaziava e as praias se enchiam. Era como se um tufão passasse pelas metrópoles e junto consigo levasse todos os habitantes para o litoral. Porém Jose pretendia fazer algo diferente dessa vez ao invés de seguir a multidão.
Se acomodou em um chalé abandonado de um casal de vizinhos dela. Eles entregaram-lhe a chave e disseram para ela aproveitar e que se sentisse em casa. Foi um pouco difícil no começo, principalmente por estar na casa de outras pessoas. Mesmo que estivesse sozinha, ali não era o lar dela. Mas aos poucos foi se acostumando e a medida em que ia reativando a casa, Jose foi se encantando pelo belo lugar.
Ela tirou o pó dos móveis rústicos de madeira escura. Desemperrou duas das cinco janelas que o chalé escondia. Com dó no coração foi destruindo as teias de inocentes aranhas que já deviam estar hospedadas ali há um bom tempo. Trouxe lenha para a lareira e a acendeu enquanto varria o chão e em seguida esquentava um doce chá no antigo fogão a lenha na cozinha.
Ao término de sua faxina, que durara cerca de três dias, Jose já estava habituada com o não-tão-pequeno chalé dos Montilli, e já se sentia mais em casa. Pôde admirar com calma a grande estante de livros que ficava encostada na parede leste do chalé. Encontrou muitos de seus autores preferidos entre as prateleiras daquela pequena biblioteca particular. Pegou um livro aleatório e sentou-se para poder ler despreocupada, foi então que percebeu alguns quadros pendurados nas paredes.
Podia agora observá-los com clareza, pois antes estavam cobertos por uma espessa camada de poeira. Ela viu no primeiro quadro um casal de coelhos em um campo verdejante, o segundo trazia a figura de uma gaivota dando piruetas em uma céu pintado com as cores do arco-íris, o terceiro era um tanto quanto abstrato e dava a sensação de possuir mais de um significado, o qual Jose não fez muita questão de decifrar.
O quarto e último quadro pendurado na sala era de uma beleza singular que a garota não pôde deixar de admirar com brilho nos olhos. Era um casal de idosos sentado em um desses bancos de praça, estreitos e brancos, nos quais somente cabem duas pessoas. Porém o banco não estava em seu habitat natural, que no caso seria a praça, ele estava na beira da praia, rodeado de areia dourada e molhada por toda volta. O casal abraçado estava de frente para o mar, portanto de costas para a pessoa que estivesse observando o quadro. Bem a frente do casal podia-se ver a coloração azul-acinzentada da água, uma cor quase morta, como se o oceano também estivesse velho. Uma grande onda se erguia das profundezas de suas águas, e vinha em direção ao indefeso e desprotegido casal. O único ser que fazia companhia a eles era uma pequena gaivota, com uma de suas asas ferida, e assim como as duas pessoas naquela pintura, olhava para a imensidão cinza do mar.
Jose podia sentir toda a atmosfera do quadro, como se ela mesma estivesse naquele ambiente. A areia macia sob seus pés descalços. O vento envolvendo seus cabelos, assim como envolvia as folhas de um pequeno coqueiro escondido em um canto da figura. O cheiro do mar, faminto e voraz. O som de algumas pequenas ondas quebrando em frente àquela imensa que em sua direção se encaminhava. E por fim a obscuridade da cena que era causada devido ao amontoado de nuvens que bailavam nos céus como bailarinas de algodão.
A garota meiga e simpática, da cidade de La Crosse, Wisconsin, virara agora uma destemida caçadora de aventura. Deixou o chalé abandonado, com o fogo ainda crepitando na lareira e se embrenhou por um pequeno caminho de uma trilha em direção à floresta. Se aquele senil casal enfrentava a bravura de um mar perturbado, ela não temeria o que lhe aguardava através dos mistérios imersos naquela floresta tortuosa. Cansara de pertencer a um mundo previsível e dentro dos padrões, ela queria mesmo era voltar no tempo e pertencer àquela curiosa época no século XIX, em que a humanidade conseguia ser menos patética e dissimulada.


Anúncios

6 comentários em “conto | Devorador de almas

  1. Laura:Pois é, de vez em quando tenho uns surtos de inspiração sim ^^ Mas minha amiga me deu uma idéia de um final muito mais criativo :/ pena que eu não pensei nele antes de postas. Mas agora já era, o que está feito tá feito ._.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s