(TEXTO) Velha infância

Onde estão as rodas de ciranda? As crianças de braços dados? Será que nenhum pequeno pedaço sobrou do anel quebrado? E aquele amor era tão pouco que realmente se acabou? Dona Rosa foi embora há quanto tempo? Pelo visto bastante, tanto é que nem ao menos recordamos dos versos ditos por ela.
Onde estão as amarelinhas? As crianças pulando de um a dez até chegar ao céu? Por onde andam as pedras que eram jogadas naqueles pequenos quadrados desenhados a giz no chão?
Por onde anda o soldado da cabeça de papel? Foi enfim preso no quartel por não ter marchado corretamente? Ou será que o quartel nem mais existe? Sim, é mesmo, com o incêndio o quartel acabou, os soldados se aposentaram e as crianças que cantavam essa música nem lembram mais como se marcha.
Será que o Cravo e a Rosa ainda estão juntos, ou então o desmaio do Cravo acabou o levando ao óbito, deixando a Rosa mais triste do que já estava? Suas pétalas murcharam com o tempo e seus espinhos caíram. Mas será que ao menos seu caule ficou?
E o tal bosque solidão, ainda abriga aquele anjo? Será que já foi ladrilhado como a doce jovem prometeu, com pedrinhas de brilhantes? Ou será que a rua foi esquecida? Assim como as árvores que seu bosque abrigava?
Será que as crianças se arrependeram de botar o pezinho “aqui” e “ali”? Se não, então porque não as vejo mais dançando essa música?
Será que enfim o limão chegou em algum lugar, ou se perdeu pela roda de tanto passar de mão em mão?
O gato conseguiu fugir de quem lhe tocou o pau? E Dona Chica, será que ainda lembra do berro que ele deu?
E por onde andam as crianças que cantavam com tanta melancolia a história de Terezinha de Jesus, aquela que foi acudida por seu pai, irmão e por seu futuro noivo? Porque não falam mais sobre ela? Será que a esqueceram também?
A barata conseguiu alcançar seu tão desejado número de sete saias de filó? Ela já depilou seu pé e comprou um verdadeiro sapato de veludo? E sua cama continua a ser de capim, ou então conseguiu a tornar de marfim? Já se formou e conquistou seu anel de formatura? E em seu coco raspado já cresceu algum fio de cabelo?
Onde estão as crianças que cantavam a música do ovo choco? Cansaram de esperar pelo lixeiro? Não acharam mais espaço na lata do lixo?
Por onde andam as crianças que brincavam de futebol na rua com bola de vôlei, e as que faziam roda de vôlei “três cortes” com bola de futebol?
Queimada hoje em dia só mesmo as cozinheiras atrás das panelas do fogão. Não mais um grupo de crianças em uma quadra e várias bolas.
Porque não existem mais crianças brincando de polícia e ladrão? Talvez seja pelo medo que tem por verem os polícias e ladrões de verdade, todos os dias, nos noticiários da TV.
Carrinhos de rolimã não vejo mais. Eles deram lugar agora a corridas virtuais, em vídeo-games de última geração. E as bicicletas foram abandonadas por páginas na web.
Onde estão as crianças da minha infância? Cresceram. E as brincadeiras? Amadureceram. Sinto falta daquele grande grupo de crianças que ocupavam as ruas e “atrapalhavam” os poucos carros que trafegavam pela região. Sinto falta das conversas até altas horas na rua, até ficar noite e os pais terem que ir chamar seus filhos pra jantar. Sinto falta das risadas, dos abraços, dos segredos, das mãos dadas, e da cumplicidade. Hoje em dia são poucas as amizades que perduram, e quando acontecem devem ser muito bem preservadas.
Esperemos então que não morram por completo as crianças dentro de nós, que apenas adormeçam, como naquela história de uma tal “Bela Adormecida”.




A gente brinca da nossa velha infância ♪

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6 pensamentos sobre “(TEXTO) Velha infância

  1. Me encantei com esse conto. Realmente, o desenho que você falou no post anterior te deu uma nostalgia e tanto, né?São tantas perguntas… e as respostas? Essas crianças "morreram", não no sentido literal, mas hoje não lembram mais o que é ser criança, que foi uma criança um dia e que cantava todas essas músicas e brincava nas ruas.Esse conto me deu uma grande nostalgia também. Belo conto, Bruna, de verdade.:*

  2. Meu coração tá apertado agora! Como sinto falta dessas coisas… da ingenuídade e brincadeiras, amizades verdadeiras e risadas sem compromisso. No tempo que ainda se ama ir pra escola, porque básicamente o que se faz é encontrar os amigos para brincar e aprender músicas e jogos novos. Ah, ser criança com certeza É O QUE HÁ! E o que nos resta… é saudade no peito. PERFEITO! ♥

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