(CONTO) Truth about Lies

-Por que você se entregou no meu lugar? – ele perguntava confuso, vindo atrás de mim enquanto eu andava a passos largos, tentando fugir dele.
-Por nada. – tentei ser o mais sucinta possível.
-Como assim nada? Por que disse que foi você que fez aquilo, se na realidade a culpa é minha?
-Por que importa tanto pra você? Eu salvei sua pele não salvei? Então pra que ficar aí remoendo esse assunto? – parei e me virei para ele, tentando ver se olhando em seus olhos ele entendia e me deixava em paz, infelizmente ele era persistente.
-Só quero saber o que te levou a mentir dessa forma, essa não é você. Aquela que sempre presa pela verdade, seja qual for a consequência.
-Tanto faz, eu salvei você e ponto. Fim de assunto. – voltei a fugir dele, e daquela conversa, que eu sabia, não chegaria a um bom lugar.
Ele agarrou meu cotovelo quando tentei fugir e me virou de frente para si.
-Diz por que você pôs a culpa em si mesma.
-Olha, você está aqui, sem nenhuma acusação sobre as costas. Deveria estar me agradecendo ao invés de fazer tantas perguntas. Um simples “Muito obrigado!” já seria um bom começo.
Ele então soltou meu cotovelo, olhou para meus olhos escuros e sorriu.
-Você gosta de mim. – falou convincente e com um enorme sorriso nos lábios.
-O quê? Do que você está falando? Bateu com a cabeça em uma pedra ou algo do tipo? – tentei desvirtuar o assunto e fazê-lo parecer patético por estar dizendo aquilo, mas não foi o suficiente para calá-lo.
-É sim, você gosta de mim. Por isso livrou a minha cara, por isso se culpou no meu lugar. Porque você gosta de mim.
-Eu não gosto de você, eu apenas… Te suporto, na medida do possível.
-Não, você realmente gosta de mim, e está negando isso. Por que você nega? Se você sabe desde que me conhece que eu sou louco por você. Por que nega esse sentimento?
Meu coração acabara de se contrair em meu peito, como se estivesse ouvindo verdades de mais para poder suportar. Ele saltou até minha garganta, e eu engoli em seco para tentar colocá-lo novamente em seu devido lugar.
-Isso só pode ser uma piada. Como você pode ter tanta certeza assim de que eu gosto de você?
-Porque eu vejo nos seus olhos a dor que causa a você dizer que me odeia. Eu vejo o esforço que você faz para me evitar, e a forma como não suporta o fato de ter que me ignorar.
Como podia ser? Como ele conseguia ler-me tão perfeitamente, e em detalhes? Como ele podia ver as lágrimas escorrendo por trás de cada sorriso afável que eu tentava transmitir? Como conseguia ler meus olhos e saber que o brilho neles pulsando não era de alegria e sim de dor, de angústia? Como será que ele descobrira escondido por trás de minhas palavras falsas, as verdadeiras que eu não queria proferir? Jamais alguém conseguiu me decifrar tão rápida e perfeitamente como ele acabara de fazer.
-Isso não é verdade. – eu disse, com a boca seca.
-Claro que é. Não vê a dificuldade que você teve para dizer essa simples frase? É porque ela é mentirosa, falsa e não transmite seus verdadeiros sentimentos. Se você simplesmente admitisse seria muito mais fácil. Um simples “Eu te amo!” já seria um bom começo.
Não aguentei mais, eu tinha que dizer, tinha que me abrir e derramar meus verdadeiros sentimentos, eles já estavam quase me afogando por dentro.
-Eu amo você. – sussurrei.
-Até que enfim! – ele levantou as mãos como o Cristo Redentor e olhou para o céu como se estivesse agradecendo alguém.
-Mas eu não posso ficar com você. – eu precisava dizer isso também. Jamais alimentaria as esperanças dele. Eu não queria machucá-lo com o futuro que me aguardava. Não queria que ele sofresse.
-E por que não? – e lá vem ele novamente com interrogatórios.
-Simplesmente não posso. – eu não queria dizer a verdade, mas devia.
-Diga por quê. – ele falou impaciente.
-Eu vou me casar. – saiu assim, fácil, como um sapato que aperta seu pé e você não vê a hora de tirá-lo, e quando ele sai você fica inteiramente aliviada.
-Vai o quê?
Ôh-ouh! Não era essa a reação que eu queria que ele tivesse. Eu já sentia o doce coração dele se despedaçando em seu peito. Sentia a dor que dele emanava. Sabia que eu acabara que cravar-lhe uma estaca no coração.
-Lembra-se da viagem para o Canadá? – ele confirmou com a cabeça, meio aturdido – Pois é, nós já nos conhecíamos de outros lugares, eu e meu noivo, e lá nos reencontramos. Passamos um mês juntos, aquele mês inteiro em que eu estive viajando eu estava com ele. E então ele me pediu em casamento e… Eu aceitei. Vamos fazer a cerimônia mês que vem, ele vem morar comigo aqui no Brasil, mas depois vamos comprar um apartamento, provavelmente em Nova Iorque. Desculpa estar te contando isso só agora, mas é que…
-Não precisa explicar. Eu entendi. Ele deve ser mais rico, mais bonito, ser mais bem conceituado. E de mim você só poderá receber amor. De que isso adianta nos tempos de hoje não é? Amor? Uma simples palavra, banalizada pela sociedade. – Oh não, não fale assim, por favor, você só torna as coisas mais difíceis seu imprestável sentimentalista. – Você terá um futuro melhor com ele, mais promissor e confortável. O que sentimos um pelo outro de nada vale. – Cale a boca seu inútil, quer que eu morra aqui na sua frente de tanto remorso?
-Desculpe, mas eu não podia mentir pra você. Sim, eu te amo, mas amo ele também e… Ele me pediu em casamento, então…
-Casa comigo? – Isso, crave uma estaca no meu coração também, porque não? Assim morremos os dois juntos, simples.
-Eu já recebi um pedido de casamento e o aceitei, não posso aceitar outro.
-Então cancele o primeiro. – ele praticamente implorava pra eu ficar com ele, mais alguns momentos e provavelmente ele estaria ajoelhado pedindo que eu o escolhesse, mas eu não suportaria ver essa cena, então saí dali o mais rápido que eu pude.
Desde esse dia não o vi mais, duas semanas se passaram e nenhuma notícia dele eu recebera. Enfim, o que eu desejava se cumpriu. Essa hora ele já deveria ter me esquecido. Eu precisei mentir para protegê-lo, duas vezes. Uma para ele não ser descoberto, e outra para não sofrer por mim. Eu sabia que se dissesse que iria casar, ele consideraria isso uma traição, ficaria magoado e logo me esqueceria, porém se a verdade MESMO viesse à tona, ele não suportaria. Agora está tudo feito, e ele não mais se lembrará de mim, o que torna mais fácil minha partida. Sei que daqui a duas semanas provavelmente meu aneurisma não aguentará mais e explodirá. Mas eu não podia permitir que ele me amasse sabendo que em breve acabaria por me perder. Essa dor seria muito maior, ela o mataria por dentro aos poucos. Ele não suportaria perder-me, assim como eu não suportei ter que deixá-lo.
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10 pensamentos sobre “(CONTO) Truth about Lies

  1. OH MY GOD! ç.çEu sei que é cruel, mas ela deveria ter contado pra ele, pra passar os ultimos dias aproveitando. Ai, sei lá… acho que a dor dele quando descobrir que ela morreu, vai ser pior. :(Olha só eu, falando como se fosse real. hasuhasuhasViu o que seus contos fazem comigo? Quem mandou você ser tão realista?Preciso dizer que amei?! rsrsBeijos. ♥

  2. Bell:Concordo contigo Bell's, ela deveria ter feito que nem a guria do Amor pra Recordar. Mas ela é cabeça dura e não quis contar a verdade pra ele. ):AOKSAOKSO' Às vezes até pra mim eles parecem reais *-*Amou? Sério? que boooooom ^^bjs.

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