(CONTO) A chill in the air

Era estranho como todos ao seu redor pareciam estar morrendo. Lucie ficava apavorada só em pensar na morte. Tinha medo de sofrer, de deixar tudo para trás e de não ter ideia de o que aconteceria depois. Será que continuaria existindo em alguma dimensão paralela? Será que iria para o céu? Será que simplesmente viraria pó e de nada mais iria lembrar? Era estranho pensar que uma hora estaria lá e na outra não.
Estes pensamentos mórbidos começaram a invadir sua mente no momento em que começou a perceber diversas mortes acontecendo próximas a ela. Parentes, amigos, parentes de amigos. Era como uma onda de partidas. Mas o mais estranho é que não eram mortes seguidas uma da outra, mas sim em pares. Cada um que partia parecia levar alguém junto consigo. E depois de um tempo mais um par acabava indo embora. E mais outro, e outro… Quando fosse a hora dela, quem será que morreria junto?
As batidas insistentes na porta de seu quarto a tiraram do devaneio sobre mortes, a fazendo voltar para a realidade.
– Lucie, sai já dessa cama! Não vou falar de novo. Está na hora da sua aula.
– Já estou indo, mãe! Já estou indo.
Pensar em vida após a morte não era muito agradável, mas pensar no que sua mãe poderia fazer se ela não saísse do quarto naquele exato instante era pior ainda. Foi pensando nisso que a jovem logo pulou da cama, vestiu seu uniforme da escola, deu um jeito de prender o cabelo de uma forma atraente e colocou a mochila no ombro. Saiu correndo pelas escadas e chegou na cozinha o mais rápido que pôde.
– Já disse para não ficar até tarde desenhando. Você nunca acorda no horário quando faz isso. – a mãe de Lucie disse, preparando algumas panquecas.
– Quem disse que eu estava desenhando? – perguntou Lucie inquiridora, como se a afirmação de sua mãe não passasse de uma calúnia.
– Suas mãos manchadas de grafite.
Lucie, então, levantou a mão direita e olhou severamente para ela, como se a culpasse de tê-la delatado para a mãe. E sussurrando um irritado “Droga!”, que foi obviamente advertido por sua mãe – “Tome cuidado com o que fala, menina.” – ela pegou uma maçã da fruteira em cima da mesa e saiu correndo na mesma velocidade que descera as escadas. Sua mãe nem teve tempo para qualquer objeção, pois a filha já havia saído pela porta da frente.
Lucie ia seguindo sua rotina de sempre, caminhando para a escola e mastigando tranquilamente sua maçã, quando sentiu um vento frio atingir seu pescoço descoberto, fazendo um calafrio descer por sua espinha. Era início de outono, e o ar gelado começava a cobrir as ruas de Seattle. A jovem se aconchegou mais em seu casaco e continuou seu caminho.
Mais tarde, após a aula, Lucie se dirigia de volta para sua casa quando foi atingida novamente pelo vento gelado, desta vez de forma mais intensa. Nunca fora muito friorenta, sempre havia preferido mais o inverno do que o verão, mas aquele calafrio que estava sentindo não era proveniente apenas do clima, mas sim de algo a mais que ela não sabia explicar.
Estranhamente a rua por onde andava estava vazia, só agora havia notado tal situação. Normalmente o caminho de volta para casa era bem movimentado, pois vários alunos do colégio pegavam a mesma direção que ela, e algumas pessoas se deslocavam até os restaurantes das redondezas, pois era hora do almoço. Porém naquele momento ela não via uma viva alma ao seu redor. Achou esquisito, bem esquisito. Mas continuou andando. Quanto antes chegasse em casa, melhor. Aquele dia não estava dos melhores.
Ao cruzar a esquina levou um susto, colocando a mão no coração e dando um leve pulo para trás. A sua frente, não mais de dez metros de distância, estavam paradas duas figuras macabras que eram motivo suficiente para explicar os calafrios que Lucie estava sentindo. Uma delas era uma jovem que não parecia ter mais de 24 anos. Sua pele de tão pálida chegava a ser translúcida. E seu cabelo comprido até a cintura era negro como uma noite nublada sem lua e sem estrelas. Seus olhos vazios e sem vida eram igualmente escuros. Ao lado dela, a outra figura estava coberta por uma capa preta que ia até os pés e escondia a cabeça. Mesmo envolta naquele manto podia-se ver a figura, que não era humana, e sim tinha a forma de um esqueleto. Seu crânio ossudo e amarelado tirou o fôlego de Lucie. As mãos igualmente ossudas, sem pele alguma as cobrindo, carregavam uma imensa foice afiada e reluzente. Já a figura da mulher pálida trazia nas mãos delicadas uma ampulheta, onde uma areia fina caía constantemente.
Lucie estava aterrorizada, paralisada. Não conseguia se mover de tanto medo que sentia. Era como se sua mente não funcionasse mais, mesmo que seu coração estivesse saltitando em seu peito devido à adrenalina. Queria correr, gritar, simplesmente sumir dali, mas seu corpo não obedecia. E então as duas figuras foram se aproximando dela, lentamente, como um filme em slow motion. Naquele instante ela sabia, não tinha como fugir deles, daqueles seres aterrorizantes. Eram a personificação da morte em forma de casal. E como tal, sempre vinham buscar de duas em duas pessoas. Aquele, Lucie sabia, era o momento dela. Então o calafrio lhe atingiu novamente, desta vez com toda a força possível, e ela ficou apenas pensando quem seria a outra pessoa a ter o mesmo destino infeliz e cruel que ela estava tendo. Quem seria seu par mortal.

a chill in the air

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