conto | OLHOS CURIOSOS

Tempo nublado. Sussurros. Uma fresca brisa percorre o ar. Olhos curiosos, mas desta vez não eram os dela, e sim os de algo que a observava nas sombras.
Calafrio – devia ter pego o casaco marfim antes de sair de casa, ela pensou. – Mas a sensação ia além… era de que mesmo agasalhada continuaria tremendo. Talvez não fosse o frio o responsável por aquilo, e sim o medo. Medo daquilo do qual precisava se esconder, sem saber se era ou não real e nem mesmo o que era exatamente.
Suas angústias? Seus fantasmas? Suas desilusões? Ela não podia responder. Não sabia responder. Não queria responder. Melhor deixar de lado, fingir que não percebia o que estava acontecendo. Melhor se deixar ser observada, mesmo sem reconhecer seu observador. Ele devia gostar do que via. Mas ela certamente não demonstrava muita euforia por tal atenção.
Seria melhor se pudesse fugir, achar um bom lugar para se esconder. Um lugar longe de olhos curiosos e de memórias indesejadas. Um lugar onde pudesse se afastar de si mesma. Mas sempre que tentava algo do tipo acabava mergulhando mais ainda em sua própria presença. Um menino que nunca cresceu já bem sabia o quão inútil era tentar fugir de sua própria sombra. Uma adulta como ela não poderia deixar de ter a mesma sensatez quanto a essa questão.
No fim das contas todas as trilhas levam para o mesmo lugar. E é impossível deixar de enfrentar nossos medos em alguma destas estradas. Uma hora ou outra eles aparecem no meio do caminho, dentre as árvores, a observar…
Então ela cruzou os braços a fim de aquecer um pouco o corpo, mas sentiu subir mais um arrepio na nuca. Deixem que observe – pensou –, isso é o máximo que pode fazer. E seguiu seu caminho.

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conto | THE BOTTLE

Matheus andava vagarosamente até a beira da praia, contando cada passo que dava, como se seguindo as coordenadas de um mapa do tesouro. Chegando à areia, começou a deixar suas pegadas marcadas no chão fofo.
Quando se encontrou diante do mar, deixou primeiramente que as ondas afogassem seus pequeninos pés, antes de olhar para a garrafa em suas mãos e decidir jogá-la na água. Sua intenção naquele momento ia além de verificar a temperatura da água. Era mais um instante de conexão com aquele oceano imenso. Como se através do toque da água em seus pés ele estivesse pedindo silenciosamente que o mar levasse sua carta engarrafada para um lugar seguro, para alguém que a protegesse com o mesmo cuidado que ele a escrevera. Assim sendo, lançou a garrafa ao mar e a observou sendo levada pela maré cada vez mais para longe.
Alguns dias depois, não muito longe dali, ainda na mesma costa, Melissa catava conchinhas na areia molhada da praia. Seus castanhos cachos dançavam junto ao vento e sua saia rosa girava como a de uma bailarina em uma caixinha de música. Entre conchas e pedrinhas coloridas, Mel acabou encontrando um objeto diferente, maior e muito mais interessante. Era uma garrafa de vidro lacrada com uma rolha de vinho, e carregava carinhosamente em seu interior um papel enrolado. Com toda sua delicadeza ela tomou o objeto translúcido na mão e correu para a sombra mais próxima, para poder explorar seu mais novo achado.
Tendo aberto a garrafa e retirado lá de dentro a misteriosa carta, começou a lê-la, buscando matar sua curiosidade. Pôde, assim, perceber que não se tratava de uma carta, mas sim de um poema destinado “à quem encontrar”. A letra tremida e amadora era um tanto difícil de ser decifrada, mas aos poucos Mel acabou acostumando-se a ela, e conseguiu ler o conteúdo que preenchia aquele pequeno pedaço de papel.

Querido mar
Redonda Lua
Ardente Sol
Comprida rua
Sorriso aberto
Abraço apertado
Olhar sincero
Segredo guardado
Joguei na água um baú
Que carregava meu tesouro
Quando abrir vai descobrir
Que lá dentro não tem ouro
Tem palavras sinceras
De uma pequena poesia
Espero que bela
Para lhe fazer companhia
Guarde com carinho
Este poema que achou
Para quando me encontrar
Dizer se você gostou

Realizando o pedido do escritor do poema, Melissa guardou aquele papel e durante vinte longos anos ele permaneceu escondido no fundo falso de uma de suas caixas de joias.
Até que um dia, querendo agradar sua esposa, o marido de Mel começou a arrumar o quarto e acabou acidentalmente deixando uma das caixas de joias dela cair no chão. Coincidentemente era a caixa favorita de Mel, exatamente na qual ela havia mantido em segredo por todos aqueles anos a carta que achara na beira da praia quando ainda era criança.
Vendo aquele papel jogado no chão o marido de Mel o pegou na mão, curioso, e rapidamente reconheceu a caligrafia da letra e as palavras ali descritas. Era o poema que ele próprio havia escrito quando criança.
Ficou surpreso por diversos motivos naquele momento, primeiramente por ter reencontrado a carta após tanto tempo, segundo por ela estar sendo guardada por sua própria esposa, e terceiro por pensar que a pessoa que encontrou a sua carta tantos anos atrás acabou se tornando a pessoa mais importante de sua vida. Era como uma história escrita pelo destino.
Ao chegar em casa Melissa encontrou Matheus na sala, sentado em uma das poltronas, segurando um pequeno papel amarelado nas mãos. Ela reconheceu de imediato a carta e ficou um tanto surpresa por ela estar com Matheus:
– Você andou mexendo nas minhas coisas? – questionou ela.
– Você gostou? – perguntou ele.
– De você ter mexido nas minhas coisas?
– Da carta…
– Bem, claro que sim, afinal eu a encontrei há muito tempo atrás dentro de uma garrafa na costa da praia. Gosto de pensar que é meu tesouro particular. Mas não entendo como você achou.
– Isso não importa, o que importa é saber se você gostou da carta que eu escrevi.
Mel não entendera de imediato, mas após alguns instantes de silêncio enquanto encarava Matheus, a ficha finalmente caiu e ela entendeu que seu marido era o dono daquela bagunçada caligrafia e daquelas belas palavras que sempre lhe acalentaram a alma.
Sorrindo, e sem precisar falar coisa alguma, Melissa correu até ele e se jogou em seus braços, sabendo que a vida tinha lhes unido por algum motivo, e que o destino escrevera suas histórias há muitos anos, com os grãos de areia da praia e com o sal das ondas do mar.

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conto | WIND

O vento intenso soprava em suas costas, fazendo os cacheados cabelos castanhos voarem para frente, cobrindo sua visão. As pequenas folhas caídas no chão apostavam corrida a seus pés, uma querendo ser mais rápida do que a outra na ultrapassagem. E apesar do frio que congelava a ponta de seu nariz e por vezes adentrava pelas mangas de seu casaco, ela seguiu firme para o seu destino, recusando a forte vontade de voltar para casa e esconder-se embaixo das cobertas.
Ao passar por um pequeno parquinho pôde ver, mesmo que com dificuldade devido aos fios de cabelo que serpenteavam na frente de seu rosto, a silhueta de algumas crianças brincando – onde estaria a responsabilidade daquelas mães no momento em que deixaram seus filhos saírem naquele frio? – e pôde também ouvir suas doces risadas seguidas de pérolas como, “É um furacão! É um furacão!” e “Olha só o meu poder! Eu sou o rei do vento!” – crianças sempre falavam com exclamações, pensou. Seu lábio inferior se curvou levemente para cima ao ouvir tais sentenças, enquanto se encolhia mais um pouco sob as camadas de lã que vestia.
Onde havia deixado seus próprios poderes mutantes da época da escola e por onde andava sua risada infantil, ela se questionava enquanto as vozes das crianças iam ficando cada vez mais longe, constituindo assim uma metáfora tangível sobre o abandono de sua própria criança interior, a qual ela ia deixando cada vez mais para trás.
Entrou, enfim, em uma farmácia, agradecida pelo reconfortante calor do ambiente e de repente recobrando a consciência e lembrando o que tinha ido fazer ali. Teve uma inicial dificuldade em achar a prateleira correta, uma vez que nunca antes precisara procurá-la. Assim que avistou o que queria, sorrateiramente deslizou para a cestinha azul, que havia pego ao entrar no estabelecimento, três caixas de marcas diferentes, pois nunca se podia confiar em um único teste de gravidez…
Indo embora, fazendo o caminho inverso ao que havia lhe trazido até ali, acabou se dando conta de que a resposta para suas dúvidas de alguns minutos atrás era bem mais simples do que pensava: ela havia deixado sua infância no mesmo lugar onde assumira a responsabilidade de trazer à vida e carregar dentro de si outra criança que não mais ela própria. Quando adquiriu a possibilidade de ser mãe.

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conto | TEMPOS DE CRIANÇA

Eu estava concentrada na janela do ônibus, pensando em todas as coisas que precisaria fazer naquela semana, e buscando meios de evitar qualquer problema que surgisse no meio do caminho. Minha cabeça não conseguia parar por um segundo, eram tantas informações para processar, e tão pouco tempo para fazer tudo… Aquilo era estressante. Então desviei meu olhar da janela, tentando ao mesmo tempo desviar meus pensamentos de todas aquelas obrigações. Queria apenas fugir por um momento.
Quando olhei pra frente, vi a pequena mão de uma menina, nos seus meros 10, 11 anos talvez, com as unhas pintadas de verde escuro coberto de glitter prateado. Uma ou duas estavam descascadas. Aquilo me levou em uma viagem ao passado…
Voltei no tempo, quando eu tinha meus 10, 11 anos, e lembrei de como costumava eu própria pintar as unhas de verde, amarelo, laranja, tudo coberto de glitter, estrelas e corações que descascavam no dia seguinte. Era uma diversão ter as unhas como arco-íris.
Lembrei a forma como me aventurava pela caixinha de esmaltes que minha mãe tentava, sem sucesso, esconder de mim. O cheiro da acetona me veio à mente naquele momento, e era como se eu realmente estivesse de volta… de volta aos meus tempos de criança. Era tão bom, tão confortável, tão simples e parecia tão certo.
Fui puxada para a realidade quando o ônibus parou e a jovem menina desceu. Mas ainda assim fiquei perdida na minha nostalgia, querendo poder viver de novo àquela época em que tudo se resumia a meia dúzia de esmaltes coloridos e um punhado de glitter.
Eu sabia que o passado não voltava, a não ser em forma de lembranças. E também tinha consciência de que minha semana ainda seria atarefada, cheia de compromissos e ocupações que me fariam, novamente, deixar aquelas unhas verdes de lado. Mas por ora eu preferia ficar ali dentro daquele ônibus, relembrando momentos bons da minha infância, e dizendo a mim mesma que todos crescemos, mas isso não significa que como adultos precisamos esquecer as crianças que fomos um dia.

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conto | PONTO DE VISTA

ELE

Eu já havia notado que ela sempre tinha um exemplar de alguma obra em mãos, e se não estivesse lendo no momento, certamente o livro estaria a poucos metros de distância, onde pudesse alcançar com um simples esticar do braço. Era o tipo de leitora voraz, não pela velocidade com a qual lia, mas pela quantidade de livros com os quais aparecia.

Naquele dia ela tinha um curioso exemplar em cima da mesa, descansando próximo de suas mãos que digitavam freneticamente no teclado do computador, enquanto ela nem sequer notava minha discreta aproximação.

Ao chegar perto da obra, raptei o livro em minha pegada, o que capturou instantaneamente o olhar dela para minhas mãos. Então ela não estava tão absorta assim, afinal de contas… Ou talvez estivesse, mas o fato de terem mexido em um de seus bens mais valiosos tenha a acordado do transe.

– Desculpa, eu só queria dar uma olhada no que você está lendo.

– Ah, sem problemas! É um livro muito bom! – ela sorria enquanto falava, agora sem aquela expressão assustada que há pouco havia feito, e com uma leve coloração rosa surgindo em suas bochechas. Falar sobre livros a empolgava, isso estava bem claro!

Instiguei-a um pouco a falar sobre a história daquela obra, mas ela pouco sabia, pois havia começado a lê-lo naquela manhã. Pelo que havia entendido até então, me dissera, era que a história se tratava de um mistério que envolvia algo como uma onda sonora perigosa, conspirações e um sujeito que acabara de acordar de um coma. Roteiro interessante! Mas ouvi-la falando era mais. Sua paixão por aquilo era evidente.

Quando comecei a folhear a obra, vi que a mesma tinha algumas reentrâncias entre as páginas. Fui investigar o que era e me deparei com um espaço contendo um marca páginas; logo em seguida outro onde um lápis dividia duas páginas, e mais a frente uma folha de árvore se escondia no meio do livro; isso sem contar o papel colorido que se encontrava logo ao fim da obra, atrás da orelha da contracapa. Nele estavam contidas anotações diversas como citações, pensamentos aleatórios, opiniões sobre a história e coisas do gênero, todas anotadas com uma caligrafia cuidadosa, cheia de comprometimento. Além disso, enquanto folheava o livro, pude notar alguns rabiscos nas laterais das páginas e algumas frases grifadas de lápis ao longo da história – certamente passagens que ela achara interessante.

A partir daquele cenário impliquei com ela de frescura, questionando se ela estava tentando assassinar o livro de alguma forma, no que ela me respondeu que livros são feitos para serem vividos e não apenas admirados. E era exatamente o que ela estava fazendo, vivendo aquele livro por completo, da maneira mais sincera que eu já havia visto. Aquilo me tocou de alguma forma, e depois que nossa breve conversa literária havia terminado, voltei para minha mesa de trabalho e segui redigindo o relatório mensal que eu precisava entregar no dia seguinte. Mas não antes de colocar um lápis que encontrei na minha mesa, dentro do livro que eu estava lendo no momento, para futuras anotações…

ELA

Era cálculo que não acabava mais. Meus neurônios estavam quase entrando em parafuso tentando conciliar fórmulas e mais fórmulas e entender as relações daquelas três planilhas abertas em minha máquina de computador. Estava muito concentrada naquele mundo de números que nem notei a aproximação dele. Só vi que ele estava ali quando pegou da minha mesa o livro que eu começara a ler naquele dia. Foi só então que tirei meus olhos da tela do computador e os levei até ele.

Acho que devo tê-lo assustado com minha repentina reação, porque logo em seguida ele se desculpou por ter pego meu livro. Avisei que não havia problema algum, porque realmente não havia mesmo. Eu amava livros, e amava mais ainda quando alguém se interessava pelo assunto assim como eu. Adorava falar sobre livros. Sempre! Inclusive acho que acabava me empolgando demais quando o assunto era esse. Senti naquele momento um calor subindo por minhas bochechas, o que normalmente acontecia quando eu estava: 1. Bêbada; 2. Empolgada ou 3. Gostando de alguém. Bem, acho que podemos descartar a primeira opção. Quanto às demais…

Enfim, logo ele começou a querer saber mais e mais sobre o livro, mas eu ainda não tinha muito sobre o que falar, havia recém começado a história, porém já estava achando ela incrível! Então tentei dar uma resumida no que eu havia captado até então, mas pouco estava prestando atenção no que falava – ao contrário dele que parecia estar bem atento à tudo. Minha atenção estava mais voltada para a forma como a covinha em sua bochecha transparecia mesmo por detrás da rala barba que cobria seu maxilar. O livro era sobre o que mesmo?

Foi então que, em meio à minha sinopse meio improvisada e sua curiosidade pelo que havia dentre aquelas páginas, ele encontrou meus pequenos tesouros dentro do livro. Sim, eu carregava sempre um lápis comigo para anotar tudo de interessante que achasse na história. Era uma hábito do qual eu não conseguia mais me livrar, então simplesmente resolvi aceitar. Além disso, confesso que sempre tive um pouco de bruxa no meu sangue e de uns tempos pra cá comecei a colocar no meio das páginas de todos os meus livros uma folha de árvore seca. Não sei exatamente o porquê, mas elas me fazem bem e preenchem um vazio que antes eu não sabia que existia.

Diante daquilo ele deu a entender que o que eu fazia com meus livros era uma barbárie, mas de uma forma que notei ser implicância velada, uma brincadeira para quebrar o gelo. Sorri e defendi meu hábito de leitura e minha forma imersiva de viver as histórias. Ele aceitou minhas explicações com um sorriso cortês e logo em seguida voltou pra sua mesa. Enquanto que eu voltei a conferir aqueles números infinitos diante de mim nas duas telas que compunham meu espaço de trabalho.

Depois da nossa conversa tudo seguiu como antes, eu em minhas planilhas e ele em seu relatório. Era como se nada tivesse mudado, a não ser pelo leve sorriso que surgira no canto da minha boca e permanecera comigo ao longo de todo o restante daquele dia.

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