conto | SUFOCO

Eu estava detestando tudo aquilo. Maldita hora que eu fui aceitar esse desafio infantil. Mas não podia amarelar agora, afinal eu estava prestes a entrar naquele ambiente aterrador.

Dei dois passos para poder entrar naquela casinha e pude ouvir o estalido de meu salto contra o piso frio ecoar lá dentro. Um frio cobriu meus braços, ouriçando meus pêlos dourados. Suspirei profundamente e entrei.

Podia ainda ouvir as risadas de meus amigos atrás de mim, que com toda a certeza se divertiam com aquela situação. Afinal, não eram eles que estavam em meu lugar.

Andei lentamente dentro daquele local enquanto a atmosfera fúnebre e macabra tomava conta de meu ser. Eu parecia flutuar ao invés de andar, pela leveza com que batia meus pés no chão. Andei mais alguns passos à procura de alguma coisa que me fizesse sair correndo dali sem olhar para trás. Porém, durando alguns minutos nada mais vi do que escuridão e alguns manequins pintados de vermelho, talvez querendo fingir que estavam sangrando.

Durante todo o trajeto por aquele lugar não encontrei nada que me amedrontasse e já estava me sentindo aliviada por não ser um ambiente assim tão tenebroso como eu imaginara no início. Mas o auge da cena se deu quando no fim do brinquedo eu me deparei com uma porta fechada, não havia saída dali…

Meu coração pulou sentindo um medo terrível, não pelo terror de estar cercada de bonecos decapitados, ensanguentados e esquartejados, mas sim pela claustrofobia. Eu não podia ficar ali dentro enclausurada nem mais um segundo, então fui correndo o caminho inteiro de volta para achar na entrada a minha saída daquele pesadelo.

Tão grande foi o meu susto quando vi essa porta igualmente fechada. Nesse momento senti o ar se esvair de meus pulmões, sem conseguir mais voltar. Minha garganta secou, eu não conseguia mais proferir nenhum som e então meus olhos fecharam.

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conto | LUCI

Ela era como uma sinfonia elegante. Um aglomerado de sons em perfeita sincronia. Uma bela companhia para os ouvidos. Aquele tipo de música da qual não conseguimos nos desconectar e, uma vez ouvida, jamais queremos tirar do repeat
Cada gesto ou expressão que ela fazia, cada olhar distante ou suspiro profundo, era mais uma nota no compasso da melodia que a compunha. As batidas de seu coração eram como tambores que ecoavam por meus ouvidos. Seu assovio despreocupado me lembrava o som doce das flautas. E quando estava triste seu choro se assemelhava ao toque de uma gaita, a qual eu sempre procurava amparar. 
Eu nunca tinha ouvido tão bela canção em toda minha vida. Era como se o universo a tivesse composto inteira e especialmente para mim. Depois de um tempo ao seu lado eu já conhecia cada estrofe de sua letra, e sabia cantar de cor cada verso dela. A conhecia por fora, por dentro e de todos os lados. Sua partitura estava gravada em minha mente desde a primeira vez em que fomos apresentados. 
Era uma tarde clichê de verão, com o pôr do sol se movendo ao fundo do Central Park. Ela vinha de vestido floreado, imitando um jardim botânico. Minha irmã a apresentou como sua ex-colega de faculdade, mas eu não ouvi muito mais além disso, pois nessa hora meus ouvidos já estavam inundados por sua melodia. Era música pra todo lado, e só o que eu podia sentir era ela: seu cheiro, o som de sua risada, seu leve suspirar… Eram tantas notas para acompanhar que no começo confesso que fiquei meio perdido. 
Hoje, depois de passado algum tempo, estamos juntos e prestes a mudar um pouco esta história. Vamos criar uma nova canção, só nossa, e a ela daremos o nome de Luci. A nossa filha.

conto | LOCADORA

Sabe quando algo tira seus pés do chão, e você sente como se estivesse em gravidade zero? Provavelmente você só tenha sentido isso quando criança, brincando de astronauta com sua caixa de papelão e seus óculos de mergulho. Mas eu senti quando a vi pela primeira vez naquela locadora de filmes…
Era uma sexta-feira 13 chuvosa, eu acabara de sair do trabalho e pensara: “Será um longo e tedioso final de semana novamente, a menos que eu esteja na companhia deles: os Ghostbusters.”. E é claro, na companhia de mais alguns filmes antigos para compor a minha maratona nerd. Então foi o que eu fiz. Antes de ir pra casa me dirigi à locadora da minha rua, e durante o caminho já fui listando mentalmente todos os filmes que iria pegar.
Ao entrar na loja o sininho soou, avisando a entrada de um novo cliente, e eu já esperei a saudação de Joey, o figurão de óculos e bigode que cuidava da locadora há uns 20 anos. Estranhei quando ao entrar ninguém me recebeu como de costume.
No teto as luzes amarelas piscavam como nos filmes de terror, e pensando que poderia estar sozinho no recinto, fiz algo que sempre quis fazer ao longo da vida: saudei para o vazio à minha frente um “Olá… tem alguém aí?”, sem esperar resposta alguma, obviamente. Só por diversão. Até mesmo dei um sorrizinho para mim mesmo ao final da frase, para logo em seguida dar um pulo assustando quando de trás de uma das prateleiras de filmes uma garota, não muito mais nova do que eu, saiu me cumprimentando: “Eaí, tudo bem?”. Ela deu um sorriso simpático, mas logo em seguida voltou a se esconder atrás da prateleira.
Fui até ela, agora menos assustado, e perguntei sobre o Joey, afinal era sempre ele que me atendia naquela loja, nunca tinha visto nenhum outro funcionário além dele. A garota – agora eu podia perceber que era meio gótica, com os cabelos bem pretos presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça, um batom preto e alguns piercings espalhados pelo rosto – respondeu que Joey havia tirado alguns dias de férias devido ao estresse. Eu tentava adivinhar que estresse seria esse, afinal a locadora era pacata demais para qualquer tipo de ansiedade humana, mas a jovem me explicou antes mesmo de eu questionar. Parece que Joey havia ficado frustrado com o recente cancelamento de uma saga alienígena que ele estava acompanhando havia 4 episódios, e resolvera se afastar da locadora para não sofrer com a falta da chegada do quinto filme. Com isso ele acabou chamando Ellen para ficar no seu lugar. Aliás, este era o nome dela, Ellen.
Depois da nossa breve conversa, acabei me dirigindo às prateleiras dos cinco filmes que eu iria levar para assistir naquele final de semana, antes que ficasse entranho demais meu fascínio por aquela jovem de olhos negros, roupa preta, e… Ual, a única cor que exalava dela era da pele, branca como papel. De resto era uma cortina negra como o céu do Atacama, só que sem as estrelas.
Assim que consegui pegar todos os filmes que queria, Ellen veio me atender no caixa, me deu a nota de aluguel e me entregou os filmes em uma sacola de plástico amarela. Depois voltou para sua tarefa misteriosa nas prateleiras do fundo da locadora. Eu me perguntava se ela não ficava com medo sozinha naquela loja em plena sexta-feira 13, e ainda mais com toda aquela chuva lá fora e aquelas luzes piscantes no teto. Um arrepio passou pela minha espinha e eu notei que talvez eu é que devesse ficar com medo dela por ela não transparecer medo algum naquela situação sinistra. Enfim, voltei pra casa o mais rápido que pude, tentando afastar aquele pensamento da mente.
Passei o final de semana inteiro distraído. Tentei me conectar com meu antigo e tradicional hábito ‘comer, ver filme, dormir, e fazer tudo outra vez’, mas algo acabava sempre roubando minha atenção. Na verdade não algo, alguém… A jovem Ellen da locadora. De alguma forma aquela garota, pálida como um fantasma e dark como um vampiro, havia me encantado. Talvez pelo fato de sua aparência juntar dois de meus personagens preferidos de filmes de terror. Seja lá como for, aquela garota não saía dos meus pensamentos, mesmo quando eu tentava afastá-la ela não demorava muito a voltar.
Foi então, na segunda-feira, após meu final de semana da preguiça e da ressaca cinematográfica, que eu decidi descobrir mais sobre Ellen. Fui à locadora determinado a encontrá-la, mas chegando lá quem me recebeu não foi ela, e sim Joey. Questionei a ele onde estava Ellen, agora que ele havia voltado. Ele me respondeu que ela estava em casa, e que só tinha ficado ali em seu lugar por algumas semanas enquanto ele se recuperava do fato de que sua saga preferida tinha sido cancelada. Mas quando ele descobriu que os diretores revogaram a ideia e garantiram uma quinta sequência para os filmes, Joey melhorou na hora, voltou para o trabalho e mandou Ellen de volta para os pais. Aliás, ela e Joey eram primos. Eu até mesmo podia notar a semelhança no tom de pele e dos cabelos. Ambos pareciam seres meio etéreos mesmo, quase que como de outro planeta.
Dizer que eu não havia ficado chateado pela abrupta partida de Ellen seria o mesmo que dizer que eu não havia ficado chocado com sua repentina aparição naquela noite, mas não era como se nos conhecêssemos por longos anos e de repente ela tivesse me deixado, certo? Errado! Porque não era assim que meu afeto funcionava. Eu certa vez tive um coelho durante cinco anos e jamais consegui me apegar a ele, então um dia meus pais o trocaram por um hamster que morreu em duas semanas, mas pelo qual eu chorei longos seis meses. É, eu era estranho deste jeito. Ou seja, a ausência de Ellen havia aberto um buraco negro em meu peito, e por buraco negro eu quero dizer literalmente o fenômeno astrológico que suga toda a matéria, luz e vida à sua volta. Eu até mesmo me tornei um cara mais amargo do que o habitual.
Depois de algumas semanas – ou talvez tenham se passado meses, eu já não era capaz de indicar a passagem do tempo -, voltei à locadora para pegar alguns filmes bem dramáticos, que trouxessem perdas na vida dos seres humanos: cachorros que sumiram, casamentos que acabaram, filhos mortos na guerra, até mesmo doenças terminais, qualquer tema que me fizesse ver a vida com menos cor do que eu já estava vendo. Mas quando eu entrei na loja, tudo mudou. O buraco negro se fechou e as únicas cores que importavam era o pálido branco da pele dela e o preto em todo o resto do seu corpo, das unhas da mão aos coturnos nos pés. Ela sorriu, me deu um breve “Olá!” e se escondeu atrás de uma prateleira. Naquele momento eu quis que o tempo parasse, queria ter uma máquina para congelar o tempo e tê-la ali pra sempre comigo, mas percebi que se isso fosse possível ela congelaria junto, e de nada adiantaria para mim tal ação, afinal jamais ficaríamos juntos na mesma dimensão. Então varri esta ideia da minha mente e me dirigi até Ellen, estufando o peito e me cobrindo de coragem para chamá-la pra sair.
Quando cheguei até a prateleira onde ela estava ela falou: “Por onde esteve escondido, Sr. Maratona Nerd?”. Ela lembrava os títulos que eu havia selecionado naquela fatídica sexta-feira 13, e percebera quais eram minhas intenções para tais escolhas. Eu gostava dela um pouco mais agora. Se isso fosse possível.
Eu dei uma risada para sua pergunta e questionei, me inflando de coragem: “Ellen, será que seria muito estranho se eu te convidasse para… ahn, um encontro hoje à noite?”. No que ela respondeu sem pestanejar: “Hoje à noite que você diz, tipo, agora? Porque agora é noite, e é tipo, hoje…”. Dei mais uma risada com aquela resposta e balancei a cabeça afirmativamente. Ela me disse que precisava trabalhar. Eu perguntei onde Joey estava. Ela disse que a história do quinto filme era falsa, um site ordinário na internet divulgou a matéria sobre os diretores terem repensado no assunto, mas era tudo mentira, pois realmente não haveria uma continuação para a saga, já que os números dos anteriores nas bilheterias de cinema tinham sido catastróficos e ninguém nem mesmo sabia explicar como a saga chegou até um quarto filme para começo de conversa, quem dirá fazer um quinto. Joey entrou novamente em depressão e se afastou por um longo período dessa vez.
Eu então questionei se Ellen ficaria por mais tempo agora e não iria embora abruptamente. Ela disse que não foi embora abruptamente, afinal morava na rua de trás da locadora. Eu sorri, pensando o quão idiota tinha sido, e perguntei se depois que ela fechasse a loja seria um bom momento para o nosso encontro. Ela me olhou desconfiada, questionando-se se deveria aceitar meu pedido, mas respondeu que tudo bem, iria sair comigo somente se não precisássemos debater assuntos sobre os filmes nerds que eu havia locado na primeira vez que a vi. Eu disse que não podia prometer nada, afinal esta era minha natureza, e se ela estava aceitando sair comigo deveria ir se acostumando. Ela gostou do “ir se acostumando”, pois demonstrava que eu estava pensando em algo à longo prazo e não apenas alguém para breves encontros sexuais, o que ela não aceitaria e nem achava educado. Eu ri e disse que passaria lá mais tarde para buscá-la. Ela concordou com a cabeça e voltou a se esconder nas prateleiras da locadora.

conto | YOU KNOW

Well, you know, you still have a strong influence over me. Even when I say that you don’t, you know you do.
I have to admit that I cannot escape from the music power you built upon my life. It was a surgical job you have done, and it was perfectly well made.
First of all, you introduced me to a whole new music genre, and you made me love it! Songs I have never really wanted to hear, now conquered their own playlist on my cell phone. I remember of you when I listen to every single one of them, even the new ones that I added after you, and I am certain that you would love them all.
Another time that I remember of you is when I listen to that youtube music channel that you showed me years ago. I still watch all of their videos and wonder if when you watch them you remember me too.
There is also that sexy song that once you told me about, and you said it used to remind you of me. And, God!, I wish I didn’t like that so much. Both, the song and the fact that it made you remember me. I still have shivers when I listen to this one.
And let’s not forget to mention the specific song that every time that touches my ears transports me to another time. One near you. One where we are together and laughing. This song, in particular, I love so much that I dare one day tattoo it on my skin. Not to remember you, but to never forget that one day you existed in my life and that for a brief moment you were my whole world. We will always have JP Cooper, after all.
So, you know, thank you for colouring my life in gold with all of your chords.

Radio Love GIF

conto | OLD LADY

Era uma vez uma mulher, linda por fora, mas amarga lá no fundo da alma. Ao menos era o que alguns achavam…
Quando jovem, tinha muitos amantes e uma fila gigante de admiradores que ela nem mesmo era capaz de contar. Porém, ela nunca fora muito à favor do fanatismo deles. Estava ciente de sua beleza e não precisava de ninguém para reforçar ou validar este fato.
Com o passar dos anos, ela foi ficando cada vez mais velha, e sua alma foi ficando cada vez mais rancorosa – aos olhos de alguns. Porém, sua beleza nunca fora embora. Mesmo quando atingira seus 70 anos, seguira sendo uma das mulheres mais belas de sua idade, mesmo que por fora fosse severa e fria.
Algumas pessoas costumavam dizer que ela era uma velinha irritante que vivia à base de balas finnie e reclamações. Mas nenhum deles estava certo, pois nenhum deles a entendia por completo. Ninguém sabia a real verdade sobre aquela mulher: no fundo ela sempre fora livre e consequentemente feliz com a pessoa que era. Com a mulher que se tornara ao longo dos anos.

Old Grandma GIF