conto | MISSING

A year surfing, in the company of the most amazing waves, exploring the deepest seas, and diving into the clearest waters.
A year away, hearing the birds sing, feeling the wind through my hair, smelling the salt of the ocean in the air.
A year of barefoot on different beach sands, meeting local people, having small talks about life and the weather.
A year of discoveries, of new perspectives, of sweet dreams.
But still a year of missing…
Missing of the smell of my wife’s hair. Missing of the voice of my two little boys. Missing of the great smartness of my oldest girl. Missing of the sound of their laughs together, which was my favorite symphony. Missing of their tight hugs and their tan skins. Missing of their blue eyes. Blue as the oceans I surfed in. But today, finally, this missing will have an end.
As soon as I catch sight of their four blond messy hairs, waiting for me at the airport, everything makes sense. Everything I was looking for and wanted to discover among my trip, I understood there, looking in the deepness of my family’s eyes. Their love and affection were all I needed to find, after all.

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conto | DESAJUSTADOS

Somos dois espíritos livres, desbravando esse mundo sem medo do amanhã, sem medo das trilhas de mata fechada, ou das ondas que quebram na costa.
Somos duas almas que nasceram para se encontrar e seguir junto pela mesma estrada.
Nossas particularidades se completam, como seus doces dedos pelo meu cabelo desgrenhado, minha rústica barba por seu rosto suave, sua melódica voz pelos meus ouvidos, e meus lábios famintos pelo seu corpo.
Crescemos juntos por estas estradas de terra, correndo descalços sobre estes galhos caídos das diversas árvores que cobriam nossas brincadeiras e nos escondiam do resto do mundo ao nosso redor. Nos jogamos juntos contra ondas bravias deste oceano que acompanhou nossa evolução. Dormimos sob este céu estrelado que presenciou as primeiras confissões do que sentíamos um pelo outro. E procuramos juntos formas nestas plácidas nuvens acima de nossas cabeças, que muito da nossa história assistiram lá do alto.
E há quem fale ao longe, cochichando com o vizinho do lado, sobre aquele casal hippie que vende colares de pedras na beira da praia. Sobre aqueles dois jovens sem futuro, que passam o dia descalços e com os cabelos bagunçados, cheios de tatuagens cobrindo seus corpos. Os desajustados.
O que eles nunca entenderão é que esse nosso mundinho particular é o que nos conecta um ao outro e com o restante da natureza ao nosso redor.
O que eles jamais vão conseguir ver é que a nossa conexão um com o outro é tão forte quanto nossa ligação com a terra, o mar e o ar.
Somos filhos deste chão e conhecemos cada folha, cada gota deste mar e cada grão de areia desta praia.
Então sim, sejamos hippies desajustados. E sejamos qualquer outra coisa que queiramos ser, contanto que sejamos juntos.

conto | IT’S A DATE

Getting out from a train, with a suitcase in hand, glasses practically glued to his face – as it has always been for over forty years -, hair gray as the fog up in the mountains, skin thin and wrinkled, body curved, pace slow, but what really stood out in this image was his eyes, shining and searching with eager for something.
There, a few steps ahead, she was standing and waiting for him and his stories about the world he had seen over these years he was away. So many years…
She was wearing her same floral red dress, her doll shoes, and had tied her hair with a red elastic to match the dress. Her white hair, as the snow in winter, handed over her age, but her outfit and the wide smile in her face made her look like twenty again.
Ah, their twenties… The golden days when they were both young and in love. Now they were not young anymore, but seemed that their love hadn’t get old a bit. 
He then caught her gaze and opened a great smile by having the sight of her. It passed so many years without seeing those blue eyes in that pretty face, that he almost got paralyzed with that vision. But he got over it and went to her while she continued to stand up, waiting for him, like a rock, because she knew he would come – no matter how long it would take – as he promised he would. So he came.
Then they were really close to each other, looking deep into each other’s eyes, the wide smiles stuck in their faces, and the glow in their eyes still there, like a flame burning behind their pupils.
They got a little closer until there was no space left between them, and they hugged, just that. A long and tight hug, that said everything they needed to tell to each other.
He was a writer and have traveled the world over ten years to find stories to tell, but there were no words in the world that could express his feelings at that moment, in her arms. And he doesn’t need them, after all. She was understanding anything she needed to know inside that hug. He had returned to her.

conto | HER DREAM

A lot of stories passed through her eyes over all of these years.
She was there for a long time, and since her day one, she witnessed the best stories she could ever imagine.
She saw happiness, wide smiles, and tight hugs. But also sadness, painful tears, and aching good-byes.
She had the opportunity of knowing a few famous faces, and a lot of unknown ones too. And she was always there for all of them, watching their stories passing by.
But what she actually always wanted was to be able to spread their stories, showing to every and each person in this whole wide world that we are not alone! There will always be another mother saying goodbye to a daughter, or a wife and son happy as hell by welcoming their loved one home again. There will always be departures and arrivals. And she wanted to tell all of these stories.
Although she could never achieve this dream, after all, she was only a Train Station.

conto | SUPERMERCADO

Ana saíra apressada do trabalho, havia ficado até mais tarde aquele dia para poder finalizar um relatório e acabou perdendo a hora. Quando se deu conta já era tarde e precisava sair correndo para conseguir pegar o supermercado ainda aberto. Mais cedo naquele dia havia rabiscado rapidamente a palavra “comidas” em sua mão e agora precisava cumprir sua tarefa de efetivamente comprá-las.
O trânsito já não estava mais tão engarrafado como normalmente era no horário em que ela saía do trabalho, o que a fez agradecer silenciosamente, pois chegaria em seguida ao supermercado. E assim foi. Ao chegar lá, estacionou seu carro em uma das muitas vagas disponíveis e se dirigiu até a entrada dando uma leve corridinha ansiosa.
Começou então, não mais com tanta pressa, sua peregrinação pelos corredores do local. Estava atrás, especificamente, do de “biscoitos”, onde pegaria todas suas bolachinhas preferidas que seriam seu suprimento para o resto da semana. Depois de ter selecionado cinco pacotes variados, Ana saiu percorrendo os demais largos e bem iluminados corredores da loja atrás de mais alguns produtos que iria utilizar ao longo dos próximos dias: queijo, uma garrafa de vinho branco, um pacote de pipocas e balas de gelatina. Ao chegar no caixa começou a descarregar suas compras na bancada, e enquanto o caixa passava suas compras, o jovem empacotador analisava os itens e lia curiosamente a palavra rabiscada grotescamente na mão pálida de Ana.
Ele pensava consigo: seria aquela composição de pacotes de biscoitos, queijo, vinho, pipoca e balas, as tais comidas as quais ela se referia naquele discreto lembrete que fizera na mão?
Espantado, concluíra por fim que alguns conceitos acabam se distorcendo ao longo da correria de nossos dias, e que talvez aquela jovem a sua frente estivesse precisando pausar um pouco sua rotina para aprender o verdadeiro significado de “comidas”.
De repente o jovem pensou em convidá-la para jantar mais tarde naquela noite, quando ele saísse do trabalho, mas ao invés disso apenas terminou de empacotar a última bolacha e ao imprimir da nota fiscal entregou as sacolas para Ana, que saiu do ambiente sem nem ao menos desconfiar de tamanho devaneio que acabara de se passar na mente daquele empacotador apaixonado.