Minh’alma

Sabe quando você tem uma alma gêmea? Aquela que é igualzinha a você e que ao mesmo tempo te completa? Que te acompanha em todos os momentos, sejam eles bons ou nem tanto assim? Pois é, eu tinha uma. Tinha…

É triste pensar que esta existência agora está no passado e que já não tenho mais quem se enrosque nas minhas pernas nos dias de frio, nem quem fique me vigiando com grandes e curiosos olhos amarelos, ou quem não pare de miar até receber comida.

A Preta era essa minha alma gêmea. Há mais de quatro anos junto comigo, veio antes do meu irmão nascer, e já era da família. Acho que nunca tive um animal tão parecido comigo em toda a minha vida. Sempre na dela, não era de ficar aloprando para receber afago, mas não negava um cafuné carinhoso. Seguia-me para todos os lados, como uma sombra que não deixa seus pés.

Como meu pai disse, acho que era a hora dela, pois já devia ter perdido todas as sete vidas. E eu que sei as poucas e boas que ela já tinha passado. Mas espero que aonde ela esteja, sua nova vida seja eterna, e que ela possa me esperar para nos vermos novamente.

Se eu pudesse ter um único desejo em relação a ela, pediria que ela voltasse, não simplesmente como uma gata zumbi, mas que viesse em corpo de gente para que pudesse ser oficialmente a amiga que era pra mim. Meio gata, meio cachorra, mas que não teria problemas em ser humana.

Vou sentir muitas saudades da minha pequena, que era tudo para mim: alma gêmea, filha e amiga. Mas o que me deixa feliz, mesmo em meio a esse mar de tristes lágrimas no qual me afogo aos poucos, é ter certeza de que ela foi embora sabendo que sempre foi muito amada.

Preta

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Transição

Amanda era uma pessoa bem resolvida… profissionalmente. Mas quando se tratava de amor, a história tomava outro rumo, não tão “feliz para sempre” assim. Quando não estava se recuperando de algum término doloroso, estava tendo casos com os caras mais errados do mundo.

Mas algo a fazia feliz. Sua labradora caramelo, que tanto amava. E também seus cabelos cor de abóbora que indicavam perfeitamente a personalidade forte que tinha.

Apesar dos obstáculos que encontrava pelo meio do caminho, Amanda sorria para a vida. Iluminava os raios de Sol e enchia de brilho as noites estreladas. Seu alto astral era contagiante. Um vírus bom de se contaminar. Uma epidemia benéfica a sociedade.

Quando passeava no parque com sua cachorra, as árvores automaticamente se coloriam. As nuvens se estufavam, os botões de flores se abriam, e mesmo que fosse início de outono, era como se a primavera tivesse tomado o ambiente, apressada em querer voltar para casa e ignorando uma ou outra estação pelo caminho.

A companhia de Amanda era tão agradável quanto a da Branca de Neve, pois até mesmo os pássaros pareciam revoar a sua volta. Pássaros… Espere! Corvos! Negros como o breu da noite mais escura.

Planavam sobre sua cabeça, grasnando com fúria, com frieza, engolindo o dia e o endurecendo com seus olhos macabramente cinza-cintilantes.

Não se viam mais flores, a primavera fugira de tanto medo. Já não se ouviam mais cães, somente um silêncio perturbador.

Quanto a Amanda, jazia agora atirada sobre o imbatível chão seco. Sem vida. Sem a vida que trazia para a própria vida. Morta.

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Coração Palhaço

Ela:
Seu bobo!
Para quem te exibes,
ou melhor dizendo,
por que te exibes?
Achas que o acho engraçado?
Mas neste achamento todo
estás é muito enganado.

Ele:
Meu dom e paixão
é fazer rir.
Enquanto que o seu
é me fazer sorrir.
Mas nem por isso me atrevo
a questionar por que exibes
tamanha perfeição.
Então deixe-me com o humor
e recolha-se a sua beleza, por favor.

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Anjo de Vidro

Ela estava lá, atrás daquele vidro inquebrável, que a protegia de tudo ao seu redor, mas que também a mantinha inacessível ao meu toque.

Vestida de anjo, era mais do que apenas alguém fantasiado. Parecia a verdadeira encarnação de uma alma purificada e criada por Deus.

Entoava uma canção doce, tranquila e acolhedora, sobre o Natal e a inegável magia daquela noite. Cantava com tanta emoção, paixão e vontade, que fiquei tocado por aquele sentimento ao escutar sua linda voz quando passava pela frente da vitrine. Obriguei-me a parar e conferir quem exibia tamanho talento, e foi então que a vi ali, toda de branco, e competindo com o brilho emanado pelas estrelas no céu.

Eu estava provavelmente com cara de bobo, encarando aquele anjo perfeito que cantava para mim. Seus olhos de um castanho claro, puxado para o caramelo, me fitavam curiosos. Em meio a todos que paravam para vê-la se apresentando, inacreditavelmente era para mim que ela olhava. Senti-me lisonjeado por este seu gesto, e obviamente envolvido por aquele momento.

Ao fim da canção, todos bateram palmas, lançaram-lhe sorrisos, aos quais ela respondeu com seu próprio, amável e delicado. Mas em seguida cada um tomou seu caminho. Provavelmente indo para suas casas, encontrar suas famílias e comemorar com elas aquela data tão especial. Enquanto que a jovem atrás do vidro continuava ali, sozinha, vendo o mundo do lado de fora se movimentando enquanto ela própria permanecia isolada de tudo.

Seu olhar, que já não me encarava fixamente, faiscou uma rápida expressão de tristeza, como se estivesse deprimida por algum motivo. Mas foi algo tão rápido que apenas olhos atentos, como os meus estavam, voltados para ela, poderiam ter notado. Logo ela recuperou o semblante inabalável e começou uma nova canção. Esta menos triste do que a anterior, mas igualmente deslumbrante. Não havia como algo em sua voz não o ser.

Desta vez apenas eu continuava ali parado em frente à vitrine. Já estava ficando tarde, e poucas pessoas ainda permaneciam na rua. Eu pensava o que será que a fizera desistir de uma noite com a família para ficar cantando em uma loja. Foi então que parei e pensei que talvez aquela jovem atrás do vidro estivesse se perguntando a mesma coisa sobre mim. Porque um homem estaria ali, ainda parado em frente à vitrine, lhe assistindo e não simplesmente voltava para casa, para os braços de sua esposa e filhos? O que acontece é que eu não tinha família. Não desde que minha esposa faleceu, dois anos atrás. E filhos, não tivemos tempo de tê-los. Era por isso que eu continuava ali, lhe encarando. Porque o que ela estava me fazendo sentir, já não se repetia há dois anos.

Em um impulso que tomou conta de mim no momento, em meio aquela canção que o anjo ainda entoava, me aproximei mais da vitrine e encostei minha mão no vidro, no intuito de tocá-la, mas era óbvio que não conseguia.

Vi doçura em seu olhar, e compaixão também. Em meio as palavras que pronunciava, ela também se aproximou do vidro, e pôs sua mão em frente à minha, mostrando-me que também desejava o meu toque. Por mais incrível que pareça, naquele momento eu me sentia mais próximo dela do que de qualquer outro que estivesse passando na rua atrás de mim.

E sem tirar aquele lindo sorriso do rosto ela continuou cantando, me olhando fixamente, como se tudo o que estivesse fazendo fosse especialmente para mim. Meu coração saltitou só de pensar naquela possibilidade. E com o brilho da lua em seu olhar ela tornou, sem saber, aquele o melhor natal que eu poderia pedir.

anjo de vidro

Raio de Sol na Tempestade

Chovia torrencialmente. Trancado dentro de casa, Felipe olhava emburrado pela janela, com o queixo apoiado na mão, a sobrancelha retesada e dando longos suspiros de tédio a cada três minutos.

Sua programação do dia havia sido cancelada devido à repentina tempestade que decidira acontecer naquele dia. Pensara em dar uma corrida no parque naquela manhã, pois era sábado e ele só conseguia algum tempo para si nos finais de semana. Mas foi obrigado a mudar seus planos.

De repente, da janela da sala, onde se encontrava, ouviu sua mãe o chamando da cozinha.

– FELIPE! Preciso que vá ao mercado comprar ovos. Estamos sem. E estou no meio do preparo de um bolo.

Ouvindo aquele pedido da mãe, o jovem ficou ainda mais emburrado. Já não bastava estar chovendo, ele ainda seria obrigado a deixar o conforto da casa e sair para a rua molhada e cinza daquele sábado.

Sem fazer qualquer contestação com a mãe, Felipe pegou o dinheiro com ela, agarrou o pequeno guarda-chuva preto que estava pendurado em seu roupeiro e saiu para enfrentar o gelado, e nada convidativo, clima que fazia lá fora.

Andando pelas ruas encharcadas, ele só pensava que queria voltar logo para dentro de casa. Nunca fora fã de climas úmidos e frios. Sua paixão sempre foi o verão. As altas temperaturas eram suas preferidas.

Assim que conseguiu comprar os ovos, Felipe dirigiu-se novamente para a casa. O passo que dava no caminho de volta era maior do que quando estava indo para o mercado.

Conforme ia caminhando sobre as poças de água que se espalhavam por todo o chão, Felipe sentia suas pernas ficando cada vez mais molhadas, devido a água que saltava a cada passo que dava. Sua irritação só aumentava.

Foi então que logo a frente, no mesmo lado da calçada em que se encontrava, ele a viu. Uma linda jovem de cachos compridos e morenos, porém molhados por causa da chuva. Ela não carregava nenhum guarda-chuva consigo, e por isso seu cardigã azul marinho estava ainda mais escuro e sua calça jeans quase parecia preta.

Ela vinha andando com a cabeça baixa, os braços cruzados e, por incrível que pareça, um sorriso no rosto. E como Felipe pôde perceber, era um lindo sorriso. Mas isto lhe deixava confuso. Como alguém que estava ensopado em meio a uma chuva fria daquelas, podia estar ao mesmo tempo sorrindo tão alegremente? Ele não entendia. E neste momento ela passou por ele, mas antes o lançou um rápido olhar, sem parar de sorrir, e seguiu seu caminho.

Aqueles olhos que lhe cumprimentaram por poucos instantes, foram o suficiente para lhe tirar todo o stress das costas. E aquele sorriso em meio às caóticas gotas de chuva foram capazes de lhe fazer perceber que nem toda tempestade era ruim. Algumas traziam raios de Sol escondidos. Ela com certeza era um deles. E agora, voltando pra casa, Felipe igualmente sorria, pensando o quanto queria que mais dias de chuva como aquele acontecessem.

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