Transição

Amanda era uma pessoa bem resolvida… profissionalmente. Mas quando se tratava de amor, a história tomava outro rumo, não tão “feliz para sempre” assim. Quando não estava se recuperando de algum término doloroso, estava tendo casos com os caras mais errados do mundo.

Mas algo a fazia feliz. Sua labradora caramelo, que tanto amava. E também seus cabelos cor de abóbora que indicavam perfeitamente a personalidade forte que tinha.

Apesar dos obstáculos que encontrava pelo meio do caminho, Amanda sorria para a vida. Iluminava os raios de Sol e enchia de brilho as noites estreladas. Seu alto astral era contagiante. Um vírus bom de se contaminar. Uma epidemia benéfica a sociedade.

Quando passeava no parque com sua cachorra, as árvores automaticamente se coloriam. As nuvens se estufavam, os botões de flores se abriam, e mesmo que fosse início de outono, era como se a primavera tivesse tomado o ambiente, apressada em querer voltar para casa e ignorando uma ou outra estação pelo caminho.

A companhia de Amanda era tão agradável quanto a da Branca de Neve, pois até mesmo os pássaros pareciam revoar a sua volta. Pássaros… Espere! Corvos! Negros como o breu da noite mais escura.

Planavam sobre sua cabeça, grasnando com fúria, com frieza, engolindo o dia e o endurecendo com seus olhos macabramente cinza-cintilantes.

Não se viam mais flores, a primavera fugira de tanto medo. Já não se ouviam mais cães, somente um silêncio perturbador.

Quanto a Amanda, jazia agora atirada sobre o imbatível chão seco. Sem vida. Sem a vida que trazia para a própria vida. Morta.

Modelo Fotos para Blog

Anjo de Vidro

Ela estava lá, atrás daquele vidro inquebrável, que a protegia de tudo ao seu redor, mas que também a mantinha inacessível ao meu toque.

Vestida de anjo, era mais do que apenas alguém fantasiado. Parecia a verdadeira encarnação de uma alma purificada e criada por Deus.

Entoava uma canção doce, tranquila e acolhedora, sobre o Natal e a inegável magia daquela noite. Cantava com tanta emoção, paixão e vontade, que fiquei tocado por aquele sentimento ao escutar sua linda voz quando passava pela frente da vitrine. Obriguei-me a parar e conferir quem exibia tamanho talento, e foi então que a vi ali, toda de branco, e competindo com o brilho emanado pelas estrelas no céu.

Eu estava provavelmente com cara de bobo, encarando aquele anjo perfeito que cantava para mim. Seus olhos de um castanho claro, puxado para o caramelo, me fitavam curiosos. Em meio a todos que paravam para vê-la se apresentando, inacreditavelmente era para mim que ela olhava. Senti-me lisonjeado por este seu gesto, e obviamente envolvido por aquele momento.

Ao fim da canção, todos bateram palmas, lançaram-lhe sorrisos, aos quais ela respondeu com seu próprio, amável e delicado. Mas em seguida cada um tomou seu caminho. Provavelmente indo para suas casas, encontrar suas famílias e comemorar com elas aquela data tão especial. Enquanto que a jovem atrás do vidro continuava ali, sozinha, vendo o mundo do lado de fora se movimentando enquanto ela própria permanecia isolada de tudo.

Seu olhar, que já não me encarava fixamente, faiscou uma rápida expressão de tristeza, como se estivesse deprimida por algum motivo. Mas foi algo tão rápido que apenas olhos atentos, como os meus estavam, voltados para ela, poderiam ter notado. Logo ela recuperou o semblante inabalável e começou uma nova canção. Esta menos triste do que a anterior, mas igualmente deslumbrante. Não havia como algo em sua voz não o ser.

Desta vez apenas eu continuava ali parado em frente à vitrine. Já estava ficando tarde, e poucas pessoas ainda permaneciam na rua. Eu pensava o que será que a fizera desistir de uma noite com a família para ficar cantando em uma loja. Foi então que parei e pensei que talvez aquela jovem atrás do vidro estivesse se perguntando a mesma coisa sobre mim. Porque um homem estaria ali, ainda parado em frente à vitrine, lhe assistindo e não simplesmente voltava para casa, para os braços de sua esposa e filhos? O que acontece é que eu não tinha família. Não desde que minha esposa faleceu, dois anos atrás. E filhos, não tivemos tempo de tê-los. Era por isso que eu continuava ali, lhe encarando. Porque o que ela estava me fazendo sentir, já não se repetia há dois anos.

Em um impulso que tomou conta de mim no momento, em meio aquela canção que o anjo ainda entoava, me aproximei mais da vitrine e encostei minha mão no vidro, no intuito de tocá-la, mas era óbvio que não conseguia.

Vi doçura em seu olhar, e compaixão também. Em meio as palavras que pronunciava, ela também se aproximou do vidro, e pôs sua mão em frente à minha, mostrando-me que também desejava o meu toque. Por mais incrível que pareça, naquele momento eu me sentia mais próximo dela do que de qualquer outro que estivesse passando na rua atrás de mim.

E sem tirar aquele lindo sorriso do rosto ela continuou cantando, me olhando fixamente, como se tudo o que estivesse fazendo fosse especialmente para mim. Meu coração saltitou só de pensar naquela possibilidade. E com o brilho da lua em seu olhar ela tornou, sem saber, aquele o melhor natal que eu poderia pedir.

anjo de vidro

Raio de Sol na Tempestade

Chovia torrencialmente. Trancado dentro de casa, Felipe olhava emburrado pela janela, com o queixo apoiado na mão, a sobrancelha retesada e dando longos suspiros de tédio a cada três minutos.

Sua programação do dia havia sido cancelada devido à repentina tempestade que decidira acontecer naquele dia. Pensara em dar uma corrida no parque naquela manhã, pois era sábado e ele só conseguia algum tempo para si nos finais de semana. Mas foi obrigado a mudar seus planos.

De repente, da janela da sala, onde se encontrava, ouviu sua mãe o chamando da cozinha.

– FELIPE! Preciso que vá ao mercado comprar ovos. Estamos sem. E estou no meio do preparo de um bolo.

Ouvindo aquele pedido da mãe, o jovem ficou ainda mais emburrado. Já não bastava estar chovendo, ele ainda seria obrigado a deixar o conforto da casa e sair para a rua molhada e cinza daquele sábado.

Sem fazer qualquer contestação com a mãe, Felipe pegou o dinheiro com ela, agarrou o pequeno guarda-chuva preto que estava pendurado em seu roupeiro e saiu para enfrentar o gelado, e nada convidativo, clima que fazia lá fora.

Andando pelas ruas encharcadas, ele só pensava que queria voltar logo para dentro de casa. Nunca fora fã de climas úmidos e frios. Sua paixão sempre foi o verão. As altas temperaturas eram suas preferidas.

Assim que conseguiu comprar os ovos, Felipe dirigiu-se novamente para a casa. O passo que dava no caminho de volta era maior do que quando estava indo para o mercado.

Conforme ia caminhando sobre as poças de água que se espalhavam por todo o chão, Felipe sentia suas pernas ficando cada vez mais molhadas, devido a água que saltava a cada passo que dava. Sua irritação só aumentava.

Foi então que logo a frente, no mesmo lado da calçada em que se encontrava, ele a viu. Uma linda jovem de cachos compridos e morenos, porém molhados por causa da chuva. Ela não carregava nenhum guarda-chuva consigo, e por isso seu cardigã azul marinho estava ainda mais escuro e sua calça jeans quase parecia preta.

Ela vinha andando com a cabeça baixa, os braços cruzados e, por incrível que pareça, um sorriso no rosto. E como Felipe pôde perceber, era um lindo sorriso. Mas isto lhe deixava confuso. Como alguém que estava ensopado em meio a uma chuva fria daquelas, podia estar ao mesmo tempo sorrindo tão alegremente? Ele não entendia. E neste momento ela passou por ele, mas antes o lançou um rápido olhar, sem parar de sorrir, e seguiu seu caminho.

Aqueles olhos que lhe cumprimentaram por poucos instantes, foram o suficiente para lhe tirar todo o stress das costas. E aquele sorriso em meio às caóticas gotas de chuva foram capazes de lhe fazer perceber que nem toda tempestade era ruim. Algumas traziam raios de Sol escondidos. Ela com certeza era um deles. E agora, voltando pra casa, Felipe igualmente sorria, pensando o quanto queria que mais dias de chuva como aquele acontecessem.

45fbf70e01ed275ca497dd5f3bd07aa8

Keep On Dreaming

Não conseguia evitar. Era da sua natureza. Vivia se apaixonando platonicamente.
Eram incontáveis as vezes que havia dito estar gostando de alguém. E era sempre um alguém diferente.
Apaixonava-se facilmente. Por olhares, por sorrisos, por simples gestos ou palavras gentis.
Sonhava com o futuro, que logo era desconstruído por situações da vida real. E então o seu coração se partia, a sua paixão de alguma forma acabava e ela começava a procurar outro alguém para gostar. Mais uma vez.
Sem limites, este ciclo continuava em constante repetição. E não havia perspectiva que a fizesse pensar que um dia isto fosse acabar.
Mas não via problemas na vida que levava. Como a própria música lhe dizia: keep on dreaming even if it breaks your heart (continue sonhando mesmo que isto destrua o seu coração).
tumblr_lyvk56qCpl1qe10o9o1_500_large

Alyra

O céu estava nublado e Alyra, parada, observava as agitadas ondas cinzentas do mar. Ela sabia que uma chuva estava por vir, pois o vento que bagunçava seus cabelos deixava isto claro.
No dia seguinte Alyra estaria voltando para o seu país natal. Era o fim de seu intercâmbio, daquela estadia mágica que teve no lugar dos seus sonhos. Esperou tanto tempo para ir pra lá e agora sua viagem passara tão rápido.
Ali naquela praia, sentindo o vento no rosto, ela recordava de cada momento que teve naquele país. Inspirou fundo, querendo que junto com o ar viessem todas as lembranças daquele lugar.
Abaixou-se, colocou a mão na areia macia e enterrou seus dedos nela. Baixinho sussurrou para o chão:
– Eu vou voltar. Eu prometo! E da próxima vez é pra ficar. Obrigada por tudo!
Ficou ali abaixada por mais alguns minutos e depois levantou-se, deu uma última olhada para a praia e virou-se, na intenção de voltar para o apartamento no qual estava morando. Quando deu meia volta e levantou o olhar deu de cara com Gregory.
– Greg? O que faz aqui?
– Eu sabia que você estaria aqui! – Gregory falou para ela, com uma expressão angustiada.
– Está tudo bem?
Alyra deu um passo na direção de Gregory e ele, por sua vez, avançou nervosamente até ela, até que suas mãos alcançam os ombros da menina. E segurando-os, Gregory começou a falar:
– Não, não está! Porque você está indo embora. E eu não quero que isto aconteça. Eu não disse nada durante todo este tempo que você esteve aqui, porque não sabia se era a hora certa, e eu também não sabia como você ia reagir, então preferi deixar tudo como estava, e tentei pensar que você jamais iria embora. Enganei a mim mesmo, tentando pensar que um dia, quando fossemos um pouco mais adultos, acabaríamos ficando juntos, pois o destino arrumaria uma forma de nos unir. Mas o fato é que você não vai estar aqui para que tudo isto aconteça. Você vai embora amanhã e eu nem sei se irei ver você novamente. Eu tentei bloquear a ideia da sua viagem, mas agora que ela está tão perto não tenho como simplesmente ignorá-la. Você realmente está me deixando. E eu não suporto isto.
Alyra ouvia a tudo atenta, encarando, sem piscar, os olhos de Gregory.
– Então eu preciso que você saiba, Aly, e eu peço desculpas que só tenha tido coragem de dizer isto tarde demais: Eu amo você! Eu realmente amo! Não é só uma paixão, uma atração muito forte… Apesar de também ser isso. – Alyra sorriu encabulada – Mas é muito mais do que isso. E eu não poderia deixar você ir sem saber disto.
Um longo silêncio se sucedeu após a intensa revelação de Gregory. Ao que ele voltou a falar novamente:
– E então, você não vai dizer nada sobre tudo isto que eu te contei?
Olhando fixamente para os olhos azuis dele, Alyra disse simplesmente:
– Você vai me beijar ou não?
OgAAAAnxQBF0-eJdmFoT0JRgMeLu6ay3_Y3YMn9FSIZViraZBPLHgqGu_CcJWKMZjj8g7LKDGva8hc7mJqIGtJEZkQAAm1T1UE6plzfBKoGSc-ooXMV9MEc5WIpT