conto | PERFUME MASCULINO

Por que existem os perfumes masculinos?, eu me pergunto. Para perturbar nossas mentes sãs, sem dúvida alguma!

Aquele cheiro do Daniel está retido até hoje em meus lençóis e já se misturou com o aroma que Matheus deixou em meus travesseiros.

Enquanto isso, o suave perfume de Leonardo insiste em bater o pé e não largar as almofadas do meu sofá. Ali também se destaca o doce cheiro de Ruan, flutuando todos dias livremente pela minha sala de estar.

Na cozinha, entre azeites aromáticos e temperos exóticos, se sobressai o penetrante aroma de Gabriel, um gourmet de primeira.

Mas quando ponho o pé pra fora de casa, na rua em meio a tantos odores diferentes, não são os impregnados em minha casa que me seguem. Não são os cheiros deixados por meus antigos amantes que vêm me perturbar, mas sim o cheiro dele que em qualquer lugar resolve me seguir. Não importa quão cítrica ou amadeirada seja a fragrância com a qual a dele tenha que lutar, será sempre o seu perfume que permanecerá impregnado em mim aonde quer que eu vá. E eu fico aqui pensando, em que cômodo de meu lar o cheiro dele vai se instalar?

Perfume Cheiro GIF by luansantana

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conto | A chill in the air

Era estranho como todos ao seu redor pareciam estar morrendo. Lucie ficava apavorada só em pensar na morte. Tinha medo de sofrer, de deixar tudo para trás e de não ter ideia de o que aconteceria depois. Será que continuaria existindo em alguma dimensão paralela? Será que iria para o céu? Será que simplesmente viraria pó e de nada mais iria lembrar? Era estranho pensar que uma hora estaria lá e na outra não.

Estes pensamentos mórbidos começaram a invadir sua mente no momento em que começou a perceber diversas mortes acontecendo próximas a ela. Parentes, amigos, parentes de amigos. Era como uma onda de partidas. Mas o mais estranho é que não eram mortes seguidas uma da outra, mas sim em pares. Cada um que partia parecia levar alguém junto consigo. E depois de um tempo mais um par acabava indo embora. E mais outro, e outro… Quando fosse a hora dela, quem será que morreria junto?

As batidas insistentes na porta de seu quarto a tiraram do devaneio sobre mortes, a fazendo voltar para a realidade.

– Lucie, sai já dessa cama! Não vou falar de novo. Está na hora da sua aula.

– Já estou indo, mãe! Já estou indo.

Pensar em vida após a morte não era muito agradável, mas pensar no que sua mãe poderia fazer se ela não saísse do quarto naquele exato instante era pior ainda. Foi pensando nisso que a jovem logo pulou da cama, vestiu seu uniforme da escola, deu um jeito de prender o cabelo de uma forma atraente e colocou a mochila no ombro. Saiu correndo pelas escadas e chegou na cozinha o mais rápido que pôde.

– Já disse para não ficar até tarde desenhando. Você nunca acorda no horário quando faz isso. – a mãe de Lucie disse, preparando algumas panquecas.

– Quem disse que eu estava desenhando? – perguntou Lucie inquiridora, como se a afirmação de sua mãe não passasse de uma calúnia.

– Suas mãos manchadas de grafite.

Lucie, então, levantou a mão direita e olhou severamente para ela, como se a culpasse de tê-la delatado para a mãe. E sussurrando um irritado “Droga!”, que foi obviamente advertido por sua mãe – “Tome cuidado com o que fala, menina.” – ela pegou uma maçã da fruteira em cima da mesa e saiu correndo na mesma velocidade que descera as escadas. Sua mãe nem teve tempo para qualquer objeção, pois a filha já havia saído pela porta da frente.

Lucie ia seguindo sua rotina de sempre, caminhando para a escola e mastigando tranquilamente sua maçã, quando sentiu um vento frio atingir seu pescoço descoberto, fazendo um calafrio descer por sua espinha. Era início de outono, e o ar gelado começava a cobrir as ruas de Seattle. A jovem se aconchegou mais em seu casaco e continuou seu caminho.

Mais tarde, após a aula, Lucie se dirigia de volta para sua casa quando foi atingida novamente pelo vento gelado, desta vez de forma mais intensa. Nunca fora muito friorenta, sempre havia preferido mais o inverno do que o verão, mas aquele calafrio que estava sentindo não era proveniente apenas do clima, mas sim de algo a mais que ela não sabia explicar.

Estranhamente a rua por onde andava estava vazia, só agora havia notado tal situação. Normalmente o caminho de volta para casa era bem movimentado, pois vários alunos do colégio pegavam a mesma direção que ela, e algumas pessoas se deslocavam até os restaurantes das redondezas, pois era hora do almoço. Porém naquele momento ela não via uma viva alma ao seu redor. Achou esquisito, bem esquisito. Mas continuou andando. Quanto antes chegasse em casa, melhor. Aquele dia não estava dos melhores.

Ao cruzar a esquina levou um susto, colocando a mão no coração e dando um leve pulo para trás. A sua frente, não mais de dez metros de distância, estavam paradas duas figuras macabras que eram motivo suficiente para explicar os calafrios que Lucie estava sentindo. Uma delas era uma jovem que não parecia ter mais de 24 anos. Sua pele de tão pálida chegava a ser translúcida. E seu cabelo comprido até a cintura era negro como uma noite nublada sem lua e sem estrelas. Seus olhos vazios e sem vida eram igualmente escuros. Ao lado dela, a outra figura estava coberta por uma capa preta que ia até os pés e escondia a cabeça. Mesmo envolta naquele manto podia-se ver a figura, que não era humana, e sim tinha a forma de um esqueleto. Seu crânio ossudo e amarelado tirou o fôlego de Lucie. As mãos igualmente ossudas, sem pele alguma as cobrindo, carregavam uma imensa foice afiada e reluzente. Já a figura da mulher pálida trazia nas mãos delicadas uma ampulheta, onde uma areia fina caía constantemente.

Lucie estava aterrorizada, paralisada. Não conseguia se mover de tanto medo que sentia. Era como se sua mente não funcionasse mais, mesmo que seu coração estivesse saltitando em seu peito devido à adrenalina. Queria correr, gritar, simplesmente sumir dali, mas seu corpo não obedecia. E então as duas figuras foram se aproximando dela, lentamente, como um filme em slow motion. Naquele instante ela sabia, não tinha como fugir deles, daqueles seres aterrorizantes. Eram a personificação da morte em forma de casal. E como tal, sempre vinham buscar de duas em duas pessoas. Aquele, Lucie sabia, era o momento dela. Então o calafrio lhe atingiu novamente, desta vez com toda a força possível, e ela ficou apenas pensando quem seria a outra pessoa a ter o mesmo destino infeliz e cruel que ela estava tendo. Quem seria seu par mortal.

a chill in the air

conto | Kissed

Marina deu uma leve corridinha até o elevador, pois a porta já estava quase fechando, quando uma mão saiu lá de dentro e segurou as portas para que ela entrasse. Assim que viu quem era, seu coração palpitou levemente: era Guilherme, o vizinho do sexto andar.

Ambos apertaram os botões de seus respectivos andares e se cumprimentaram com cordialidade. Passados alguns segundos após as portas terem se fechado deixando apenas os dois dentro daquele elevador, Marina começou a encarar Guilherme, até que ele, se sentindo um tanto quanto desconfortável, perguntou:

– Tudo bem?

No que a moça respondeu:

– Seus olhos… são incríveis!

E neste instante a porta do elevador se abriu no quinto andar, dando a deixa que Marina precisava para sair dali, deixando Guilherme atônito e surpreso com aquela revelação.

Marina se perguntou o que havia dado nela para falar aquilo a um desconhecido? Não era como se fossem amigos apenas por se cumprimentarem de vez em quando pelos corredores do prédio ou quando se viam na padaria. Será que ela estava com algum problema no cérebro? Só podia estar! Enfim, tentou esquecer aquele momento constrangedor e esperava que Guilherme o esquecesse também.

No dia seguinte Marina foi até um dos jardins do condomínio, com seu livro à tiracolo para aproveitar o lindo dia ensolarado que fazia e dar continuidade à sua leitura. Estava em uma parte interessantíssima da história, onde o protagonista estava prestes a se declarar para a mocinha, quando de repente Guilherme apareceu e sentou ao seu lado, fazendo-a pular no banco. Depois de deixá-la se acalmar e lhe cumprimentar, ele disse:

– Os seus também…

A jovem confusa perguntou:

– O que?

No que o rapaz respondeu:

– Seus olhos, também são incríveis.

Droga, pensou Marina, ele não havia esquecido.

– Ah, claro! Aposto que este castanho super raro deve ser realmente incrível. – Marina ironizou.

– Mas quem disse que eu me refiro apenas à cor deles? Eu falo do seu olhar em si, da forma como me encarou ontem no elevador.

– Psicopata? – Marina tinha essa mania de transformar tudo em brincadeira, principalmente quando se tratava de assuntos do coração, os quais ela quase nunca levava a sério por medo de se machucar.

– Não. Intensa!

– Essa sou eu. – rindo zombeteira ela falou.

Esticando o braço no intuito de cumprimentá-la, ele falou seu nome:

– Guilherme!

Marina apertou a mão dele e disse:

– Eu sei. Somos vizinhos. Marina!

– Eu sei. Somos vizinhos.

Ambos riram. Guilherme gostava do sorriso dela. Ele perguntou, curioso:

– E então, além de ficar encarando as pessoas no elevador, o que mais você gosta de fazer?

– Ler. – Respondeu Marina, sem precisar pensar muito e levantando o livro que segurava para mostrar a Guilherme.

– E eu devo estar atrapalhando a sua leitura, suponho.

– Não, não está. Se estivesse eu já teria lhe mandado embora, provavelmente. Ou nem teria parado de ler para lhe ouvir. É que os livros são meio que sagrados para mim, então só alguma coisa importante para tirar a minha atenção deles. – E lá foi ela de novo soltando a língua na frente dos neurônios.

– E eu seria essa tal “coisa importante”, no caso?

– Talvez…

– Fico feliz em saber disso. E a propósito, a leitura realmente te faz bem. Deixa você com um ar intelectual.

– Ah, mas eu não sou sempre assim. Só quando estou tentando impressionar.

De onde estava vindo tudo aquilo? Como é que Marina aprendera a flertar tão bem e assim, descaradamente? Alguma coisa estava errada com ela. Ou talvez, pela primeira vez, alguma coisa estivesse certa.

– Ah, é? E tem usado muito esta técnica nos últimos tempos?  – Guilherme perguntou.

– Pra falar a verdade, faz um bom tempo que não uso ela.

– Bom saber.

Sorriram novamente um para o outro, até que ela perguntou:

– E você? O que costuma fazer quando quer impressionar alguém?

– Não é nada muito complicado. Eu basicamente preciso ficar de olhos abertos e está feito o encantamento. Fontes disseram que funciona. Eu sou tipo a medusa da sedução, ou algo parecido. Só que com olhos claros ao invés de cabelos de cobra.

Marina deu uma boa gargalhada com aquela última declaração de Guilherme, e desta vez ele não resistiu, o sorriso dela era lindo demais para ficar sozinho. Então Marina viu o rosto dele se aproximar do seu e sentiu a mão dele segurar levemente seu rosto, acariciando-a. Não tinha mais porque ter medo do que sentia, não parecia errado, não achava mais que iria se machucar, apenas imaginou o quão bom seria ser beijada por aquele homem em sua frente. E felizmente não precisou ficar apenas imaginando.

kissed

conto | Snakes in the Garden

Lembro como se fosse hoje: era uma tarde ensolarada de novembro. Havia chovido durante a semana anterior inteira, e agora que o sol havia secado o solo, as famílias saíam de suas casas para aproveitar o tempo bom que fazia.

Naquele final de semana fomos para a Praça do Arvoredo. Meus pais convidaram alguns amigos e ficaram fazendo churrasco e conversando. Davam boas risadas com histórias que diziam não ser para a nossa idade, e as quais eu nem fazia questão de entender mesmo. Estava mais empolgada com a presença de Douglas, filho de uma das amigas da minha mãe e meu melhor amigo na época.

Estávamos felizes da vida brincando no parquinho que ficava perto de onde nossos pais estavam, mas estrategicamente escondido em um local onde eles não podiam nos enxergar, a menos que fizessem o retorno em algumas árvores – o que alguma mãe fazia vez que outra, só para se certificar de que seu filho estava vivo.

Douglas e eu decidimos fazer competição de salto do balanço, pois adorávamos ver quem se saía melhor que o outro em todas as brincadeiras. Eu quase sempre ganhava, mas às vezes deixava ele roubar para se sentir mais confiante.

Estávamos já na contagem 3… 2… 1… prestes a pular, quando ouvi a voz de Soraia gritando “Cobra! Cobra!” e de repente tudo ficou preto.

Após os histéricos gritos da garota, eu me assustara com o iminente ataque que poderia sofrer da tal cobra, e acabei me jogando do balanço de qualquer jeito. Bati a cabeça ao ir de encontro com o chão. Logo fui socorrida por meus pais, que ouviram os gritos de Soraia, os meus ao cair e os de Douglas ao me ver desmaiada no chão.

Só depois de ter acordado e, ainda grogue, ser diagnosticada sem fraturas ou concussões por um dos amigos de meus pais que era médico, é que fui descobrir que não havia cobra nenhuma no jardim do parquinho. A invejosa da Soraia havia ficado com ciúmes de me ver brincando com o Douglas, pois sempre fora apaixonada por ele, e resolvera me assustar por pura maldade. Mas ela não esperava que a brincadeira ficaria tão séria e que lhe custaria um mês de castigo sem assistir seus desenhos favoritos, só fazendo a lição de casa.

Hoje, adulta e casada com aquele que se mostrou ser o amor da minha vida, Douglas, vejo que Soraia não mentira naquela tarde de novembro, afinal de contas. Realmente havia uma cobra no jardim: ela.

snakes in the garden

conto | Transição

Amanda era uma pessoa bem resolvida… profissionalmente. Mas quando se tratava de amor, a história tomava outro rumo, não tão “feliz para sempre” assim. Quando não estava se recuperando de algum término doloroso, estava tendo casos com os caras mais errados do mundo.

Mas algo a fazia feliz. Sua labradora caramelo, que tanto amava. E também seus cabelos cor de abóbora que indicavam perfeitamente a personalidade forte que tinha.

Apesar dos obstáculos que encontrava pelo meio do caminho, Amanda sorria para a vida. Iluminava os raios de Sol e enchia de brilho as noites estreladas. Seu alto astral era contagiante. Um vírus bom de se contaminar. Uma epidemia benéfica a sociedade.

Quando passeava no parque com sua cachorra, as árvores automaticamente se coloriam. As nuvens se estufavam, os botões de flores se abriam, e mesmo que fosse início de outono, era como se a primavera tivesse tomado o ambiente, apressada em querer voltar para casa e ignorando uma ou outra estação pelo caminho.

A companhia de Amanda era tão agradável quanto a da Branca de Neve, pois até mesmo os pássaros pareciam revoar a sua volta. Pássaros… Espere! Corvos! Negros como o breu da noite mais escura.

Planavam sobre sua cabeça, grasnando com fúria, com frieza, engolindo o dia e o endurecendo com seus olhos macabramente cinza-cintilantes.

Não se viam mais flores, a primavera fugira de tanto medo. Já não se ouviam mais cães, somente um silêncio perturbador.

Quanto a Amanda, jazia agora atirada sobre o imbatível chão seco. Sem vida. Sem a vida que trazia para a própria vida. Morta.

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