Ele

Era final de primavera na Inglaterra, e o calor londrino não era nada, comparado ao brasileiro. Até mesmo as pessoas estavam bem longe de ser como as que eu conhecia. Agora entendo o que é um povo caloroso em contraposição a outro nem tanto. Aqui todos andavam meio sérios, atarefados. Os únicos a mostrarem uma coloração diferente ao país eram os turistas encantados pelos monumentos. 
Eu procurava algo para fazer enquanto minha irmã não voltava de Canterbury, com seu marido poliglota. Devido a isto, decidi me alojar em uma cafeteria perto do hotel onde estávamos hospedados, só para passar o tempo.
Confesso que não detesto por completo a Inglaterra, eu apenas gosto mais do Brasil. Gosto da minha casa, do meu conforto, e principalmente das nossas praias. Aqui eu estava precisando me contentar com fontes e lagos. Mas este não era o fator preponderante que estava fazendo eu me irritar com esta viagem. O problema é que eu estava longe dele.
Melissa, minha irmã, não entendia minha fixação por aquele garoto. Ela era mais velha que eu e desde o início nunca compreendeu tal escolha. Às vezes acabava entrando em paranóia e achando que eu preferia ele à ela, o que realmente era uma mentira. Como eu poderia ser tão louca de escolher um dos dois? Eles eram minha alma, eram minha vida. Mas ela jamais entenderia. Nunca o aceitou.
Há alguns anos, meus pais, já sem condições de conceberem um filho próprio, decidiram adotar uma criança. Este sempre fora um sonho dos dois, mas que nunca puseram em prática. Então, certo dia, decidiram que não dava mais para esperar, eles iriam adotar. Foram a um centro de adoção e precisaram passar por uma longa burocracia para, enfim, poderem levar a criança para casa. Na época, Melissa estava noiva ainda, e prestes a se casar. A chegada de uma criança em nossa casa acabou ofuscando o brilho que emanava dela, ainda mais sendo esta uma criança especial. Luigi era portador da síndrome de down.
Minha irmã controlou-se no início, quando meus pais nos deram a notícia de que adotariam uma criança especial, mesmo ela não apoiando muito a ideia. Melissa não deu importância para tal fato pelo simples motivo de que quando se casasse ela não moraria mais conosco. Para ela esta criança não iria dar trabalho algum, o que a fez concordar com a situação.
O problema apareceu quando todos, ao conhecerem o pequeno garoto, se apaixonaram por ele. Meus pais desde o centro adotivo já haviam se encantado com Luigi, e quando o vi pela primeira vez em nossa casa, não enxerguei alguém diferente, simplesmente vi um irmão. A partir deste dia o pequeno tornou-se o nosso xodó. Ensinávamos tudo o que podíamos a ele, e recebíamos ajuda médica para saber o que de fato era necessário fazer para se criar, da melhor maneira possível, uma criança assim.
Porém Melissa sentiu-se deslocada em meio a esta novidade, sentiu-se rejeitada. Ela não precisava dizer ou fazer nada, mas nós sabíamos. Então quando ela cogitou a ideia de viajarmos para a Inglaterra – ela e seu, agora, marido e eu com meu namorado – não quis negar-lhe dizendo que preferia ficar com minha família lá no Brasil, o que, na realidade, era o que eu queria dizer. Eu simplesmente aceitei, mesmo depois de Thomas, meu namorado, ter desistido devido ao trabalho que não o liberou. Eu estava tentando fazer com que minha irmã se sentisse amada, o que ela era de verdade, só não conseguia enxergar.
Agora, falando do fundo do coração, não vejo a hora de voltar para meu país de origem. Sentada aqui, vendo as pessoas lá fora andando de um lado para o outro como formigas em meio a sua colônia, sinto falta da minha. Fico a pensar o que será que estarão fazendo dentro do nosso reconfortante formigueiro, há milhas de distância daqui? Onde estará minha pequena jóia de criança agora? Talvez dormindo ou brincando na sala. Mas o fato é apenas um, nem mesmo o calor mais forte que fosse capaz de se abater sobre Londres neste exato momento, seria capaz de descongelar meu coração. Ele está amuado, solitário, mesmo em meio a tantas pessoas que vagam pela cidade. Eu sei que um único sorriso será capaz de tirar esta minha tristeza e aquecer novamente a minha alma. E este sorriso… é o dele.
 
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Baile Real

Ninguém mais questionava ou contrariava os caprichos e vaidades do rei Edgar. Mimado desde o berço, este homem orgulhoso tomou a coroa de seu pai assim que este faleceu de uma trágica doença.
Após tomar o poder, casou-se com uma bela dama de companhia de sua mãe. A tímida e gentil Cristina. Uma moça doce e bela, que encantava a todos com sua suavidade e caridade, mas que nunca foi muito dos holofotes. Agora, tantos anos sendo rainha, já não fica mais desconfortável com o grande aglomerado de gente a sua volta, lhe fazendo mesuras e tentando agradar-lhe a todo custo. Não se acanha mais na companhia de tantas moças em seus aposentos, e prefere fingir não ouvir alguns comentários maldosos que percebe sendo fofocados pelos corredores do palácio.
Estas duas figuras distintas, um rei presunçoso e uma rainha obediente, trouxeram ao mundo uma linda jóia. Sofie, sua jovem filha e agora princesa do país no qual os dois reinam, estava completando mais um ano de vida. Como em todos seus aniversários, havia um enorme baile em sua homenagem, com música, dança e boa comida. O palácio estava lotado. Todos ali para ver a linda princesa.
Porém aquele não era um baile de aniversário tão comum. Era também o baile em que o rei Edgar apresentaria oficialmente seu sobrinho David para sua filha. David era um duque, nomeado pelo tio, e era prometido de Sofie desde seu nascimento. E tudo seria perfeito, a não ser pelo simples fato de Sofie não amar David. Este era arrogante, frívolo, superficial e o pior de tudo, ganancioso. A ganância leva um homem de cabeça fraca, o que David era sem dúvida alguma, ao fundo do poço. E o que Sofie mais desejava era ficar longe dele. 
Mais um detalhe que afastava a princesa de seu primo esnobe cada vez mais, era que ela amava John. Um dos cavaleiros do séquito de seu pai. John era um homem bonito, jovem, um tanto ingênuo, e simples. Veio de uma boa família do campo, leal ao rei. Seu pai era velho amigo de Edgar, que conseguiu um lugar para John na corte. E Sofie era apaixonada por ele desde o dia em que o viu acariciando um belo potro preto no estábulo. Quanto aos sentimentos de John por ela, não há dúvidas de que era completamente apaixonado pela menina. 
O que todos na corte sabiam, mas desejavam fingir não saber, é que Sofie era uma garota tão mimada e destemida quanto o pai. O que desejava deveria ser de seu jeito, e brigava com garra para conseguir o que queria. Tudo com classe e elegância. Em relação a sua vida amorosa não poderia ser diferente. Ela desejava se casar com quem realmente amasse, assim como seu pai fez, tomando uma simples dama de companhia como sua esposa, e desafiando os contestamentos de sua mãe, Milady Ana.
Antes de seu pai ter a chance de apresentar-lhe David como seu noivo e futuro marido, Sofie subiu em um pequeno palco no salão e pediu a atenção de todos. A música parou, os dançarinos olharam todos para ela e seu pai parou de beber seu vinho, enquanto observava com curiosidade a impetuosidade de sua filha.
A jovem pediu primeiramente que John subisse no palco ao seu lado. Ele atordoado e um tanto rubro, obedeceu as ordens de sua alteza, o que na realidade não foi bem uma ordem, mas sim um pedido gentil. Sofie então começou a falar a todos sobre o que sentia por John Stafford. Declarou-se a ele, o que para alguns foi uma total falta de compostura, para outros uma humilhação descomunal, para suas amigas da corte foi um ato corajoso e as deixou eufóricas, e que para seu pai foi totalmente ultrajante.
John amava de mais Sofie para ficar estático a sua frente, após ouvir toda aquela declaração tão polidamente dita por ela. Beijou-a destemidamente, em frente a todos da corte, em frente a David, em frente ao rei e a rainha. Todos ainda ali atônitos, observando o beijo proibido de um casal apaixonado.
 
 
John cavalgava ao lado de sua, agora, esposa Sofie. Ela princesa e ele como o novo duque, assumindo o lugar antes ocupado por David. O primo arrogante da princesa fora descoberto, pois estava há meses planejando roubar uma pequena fortuna da família real, guardada em um cofre do palácio. 
John acabara resolvendo-se com o rei Edgar, que permitiu o casamento de sua filha com ele, após uma longa conversa sobre honestidade, e lealdade. 
O que deixou Edgar tão incomodado na noite do baile, quando descobriu o romance secreto do jovem casal não foi o romance em si, nem mesmo a falta de um título mais nobre da parte de John, mas sim a mentira, ou omissão para os menos dramáticos. Após resolvido o fato de não terem lhe contado logo que se amavam, tudo acabou bem para ambos os lados. E a rainha ficou contentíssima de ver a filha feliz com alguém que realmente amava. Cristina pôde ver nos olhos da filha o mesmo brilho que sentia em seus próprios quando Edgar a escolheu como esposa. E ter a certeza de que um filho está contente é tudo o que uma mãe mais deseja na vida.
 
 

Eterna Espera

Todas as horas do relógio não são suficientes para contar a quanto tempo lhe espero. Perdi a noção de tempo, e quem sabe até a de espaço. Sei que estou esperando, e também sei que estou cansada de esperar. Nunca pensei que fosse demorar tanto assim para voltares para mim. Pensei menos ainda que pudesse um dia não mais voltar.
Sua ausência me causa uma enorme angústia. Sua falta e a do calor de seu corpo tornam o meu, lânguido e frio. Tão frio como o gelo que envolve e lacra neste momento meu humilde coração, que nem se precipita mais para fora do peito, apenas hiberna à espera de algo que lhe acalente e restitua.
Minhas mãos, antes trêmulas pelo nervosismo, agora estão duras como rochas, serradas. Meu olhar está vago, vazio e posso até mesmo dizer sombrio. O brilho se perdeu, a alegria esvaiu-se juntamente com o contentamento dos lábios que agora não mais sorriam, mas pareciam chorar.
O vento outonal que tremulava alguns fios de meu cabelo, arrepiava meu pescoço à mostra, e levava consigo cada esperança insignificante que restava em meu ser. E enquanto eu olhava ao longe, tentava enxergar seu rosto, desejando me lembrar de como ele parecia quando você ainda estava aqui. Porém nada vinha, além da imagem de uma enorme torre e prédios antigos. Eu apenas via o que estava ali para ser visto.
Sinto tanto por não poder tocar em sua face, sentir seu cheiro e completar-me com sua presença.  E sinto mais ainda por não ter sido levada com você, por ter ficado enquanto você partia. A injustiça do destino é incompreensível, e por mais que eu tente entender ou me revoltar contra ela, de nada adiantará, pois isto não me trará você de volta. 
 
 

Vidas Perdidas

Minhas mãos tremiam. Não! Na realidade meu corpo inteiro tremia. Minha cabeça, era como se estivessem chacoalhando-a sem parar. Os nervos de meu corpo estavam todos à flor da pele. Não queria mais pensar naquilo, mas parecia a única lembrança que rondava minha mente.
O rosto doce daquela jovem, que antes reluzia, agora não transmitia nada além de uma palidez mórbida e sombria. Tudo por minha causa. A culpa inteira recaía sobre minhas mãos. Fora minha incompetência que fizera uma vida acabar. Não consegui salvá-la, não consegui manter seu coração batendo nenhum segundo a mais.
As singelas pessoas que aguardavam na sala de espera – tristes eram os olhos de cada membro daquela família – confiavam na minha capacidade de salvar a menina. Acreditavam em mim para trazê-la de volta a eles, com mais vida e vigor do que quando entrara naquele hospital. Porém eu os desapontara, não consegui chegar nem perto das expectativas deles. E a dor foi imensa quando tive que dar-lhes a notícia de que eu havia fracassado.
Agora no fim do plantão, sentado em um banco de madeira, e solitário em meu rústico apartamento, fico a me perguntar “Por que diabos entrei para esta vida?”. Afinal, por que decidi ser médico, se nem salvar uma jovem menina com problemas cardíacos eu conseguia? Eu não nasci para isso, não nasci para ver uma vida se esvaindo em minhas mãos. Não tenho equilíbrio psicológico capaz de me fazer aguentar a perda de um paciente. Não, eu jamais teria essa habilidade de perder alguém sem me abalar.
Creio que nenhum médico sente-se bem ao perder um paciente na mesa de cirurgia, mas com certeza eles devem conseguir lidar melhor com isso do que eu estou agora. Na realidade simplesmente não consigo lidar com isso. Meu coração enche-se de angústia, por não ter salvado a menina, por ter falhado na minha missão. Perdi a vida dela, e agora a minha própria se esvaía de amargura e desilusão. 
 
21ª Edição Roteiro – Projeto Bloínquês

Inevitável Lembrar

Chegou precisamente às quatro horas da tarde. O Sol manhoso preparava-se para adormecer, porém ainda iluminava as folhas secas do outono que, singelamente, debruçavam-se sobre o solo molhado pela garoa vespertina.
Olhava fixamente para aquela casa antiga de madeira, de onde guardava diversas e incríveis lembranças da aurora de sua vida. Respirou o aroma de madeira molhada e subiu os pequenos degraus da varanda. As madeiras puídas do chão rangeram e ela fixou seu olhar na porta um tanto comida por cupins.
Não precisava bater, sabia que não haveria ninguém ali. Nenhuma pessoa para lhe recepcionar, nenhuma torta de maçã esfriando na janela, nenhum cachorro correndo por dentro de casa e nenhuma risada de criança correndo atrás. A pequena criança cresceu e agora estava ali, em frente à casa que crescera.
Girou a maçaneta da porta, e esta fez um rangido ao ser aberta, como se reclamasse da invasão. Ao adentrar no primeiro cômodo foi envolvida pela poeira do local, que a fez tossir algumas vezes, mas não a fez desistir de seguir em frente. Continuou pelo pequeno corredor em direção à cozinha, os móveis ainda estavam todos lá, cobertos por lençóis brancos que ao longo do tempo tornaram-se amarelos.
Ao lado de um dos armários da cozinha encontrou a porta de seu antigo quarto. Abriu e hesitou antes de entrar. Quando pisou no assoalho do quarto pôde sentir toda a atmosfera que ali ainda existia. Todas as lembranças que ela ainda guardava daquele local simplesmente a invadiram sem pedir licença. Caiu no chão ajoelhada enquanto olhava ao redor do cômodo.
Depois de algum tempo pegou o que havia ido buscar lá, uma pequena caixa de fotos de sua família. Foi embora deixando a casa como havia encontrado, vazia, sombria e nostálgica. Então do lado de fora ela deu uma última olhada no imóvel que um dia chamou de lar. Uma lágrima fugia de seus olhos, e seu coração se contorcia por dentro quando pensava no passado. Uma linda família morou ali naquela casa, em algum lugar de um passado distante. Porém a perda de um dos membros desta mesma família, fez com que a vida dessa garota desmoronasse, igual a um castelo de areia que é arrebatado pelas ondas furiosas do mar. Uma doce filha que perdeu a mãe, um gracioso pai que perdeu a esposa, uma singela família que perdera o amor.
19ª Edição Roteiro – Projeto Bloínquês
Achei super legal participar deste projeto do Bloínquês. Indico à todos que gostam de criar histórias ou apenas expressar suas ideias, participem também 😀


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Ahh, ganhei *-* Muito feliz 😀