(resenha/livro) Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos

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“A imaginação é um labirinto em que o difícil não é a saída, é a entrada”, diz Rubem Fonseca num de seus contos. Com “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos” ele nos abre o caminho para um mundo onde a realidade e a ficção, o sonho e a vigília, se confundem numa intrigante história cujo pano de fundo é o cinema. Estão presentes todos os elementos que consagraram Rubem Fonseca como um dos melhores escritores brasileiros – o ceticismo, a concisão, a aguda percepção da realidade e o absoluto domínio da história, cuja agilidade e perfeita progressão de suspense mantêm o leitor cativo até o final do livro.




Oi meus amores.
Hoje vou fazer mais uma de minhas resenhas, e esta vai ser um tanto complicada. O que acontece é que fiquei um longo período lendo um livro – a demora foi devido a algumas partes cansativas que me faziam desanimar certas vezes – e terminei-o apenas ontem. A questão é que, por incrível que pareça, ainda estou tentando absorver as informações fornecidas nesta obra. Estou confusa, dividida, perturbada, abalada, chocada, não sei mais que palavras terminadas com “A” posso usar para expressar meu estado de perplexidade.
O livro em questão chama-se “Vastas Emoções & Pensamentos Imperfeitos” do Rubem Fonseca. A história é narrada por um cineasta brasileiro – o qual não tem seu nome revelado durante o livro inteiro – e que passa por momentos nada convencionais. Entre eles está o roubo de joias preciosas, o contrabando de dinheiro entre as duas Berlins, a busca por um manuscrito esquecido e que foi dado como destruído, a morte de uma esposa que era lésbica – sim, e ainda tem outras coisas estranhas nesse livro – entre vários outros que nos deixam aturdidos.
Um dos fatores que me deixou apática na metade do livro foi descobrir que eu não sabia o nome do narrador. E até o fim do livro fiquei na expectativa para descobri-lo sem ter êxito. Na realidade o livro todo é uma louca paranoia. Afinal o nosso cineasta era casado com uma mulher chamada Ruth, a qual ele conheceu através de Liliana, que os apresentou. E Ruth, antes de se casar com o protagonista, era namorada de Liliana. – WTF? – Entendem a psicose desse livro? Só podia ser brasileiro mesmo.
Mas a história não para por aí. O narrador/cineasta/personagem principal sente-se mal pela morte de sua esposa, na realidade pelo suicídio dela. A mulher era bailarina, e após um acidente de carro ficou com as pernas imobilizadas, o que fez seu marido perder o desejo por ela e a levou a se matar. Por essa razão ele parece não se perdoar.
Então o nosso psicótico personagem começa sua grande aventura quando encontra Angélica. Uma gorda carnavalesca que lhe pede para cuidar de uma caixa, a qual guardava diversas joias preciosas, pois havia gente atrás dela e da tal caixa. Depois do assassinato de Angélica, o personagem descobre que ela fazia parte de uma quadrilha de carnavalescos que contrabandeava joias em suas fantasias.
Ele parte para a Europa, na intenção de fugir do resto da quadrilha que está atrás dele. Lá ele descobre que o manuscrito de Isaac Babel – um escritor soviético pelo qual o personagem está obsecado – que tinha sido dado como destruído, na realidade está nas mãos de um homem que vive do lado oposto da Berlim onde o nosso personagem se encontra. Na obsessão de ter o manuscrito para si, ele acaba atravessando o muro, e passando por um grande risco, para descobrir no fim do livro que na realidade o manuscrito não era de Babel, e sim de um de seus amigos. – amigo de Babel, não do personagem.
Sem contar que em certa parte do livro, o protagonista é sequestrado e fica em um porão cheio de escorpiões, ratos, aranhas caranguejeiras. Ele afirma sentir-se bem, perto destes animais, pois assim lembra-se da época em que era criança e se escondia no porão de casa à noite, para ficar observando os estranhos animais que lá habitavam.
Eu estava feliz, apesar de algemado, pois amo a escuridão. Ela me traria a paz e a solidão que eu desejava. Quando criança, esperava que todos, em casa, dormissem – mordia os dedos da mão, apertava com força o nervo que fica no ombro, mortificava-me fisicamente para que a dor não me deixasse dormir e eu tivesse caminho livre para ir ao porão com uma lanterna ver meus amigos noturnos.
Em meio à fome, sede, delírios e animais detestáveis, o nosso protagonista divaga sobre o pacote de absorventes de sua falecida mulher Ruth, que ele guardou sem saber exatamente por qual razão. Quem em sã consciência – se bem que ele estava meio perturbado nessa altura do campeonato – ficaria pensando em absorventes numa hora destas?
Ah, não posso deixar de falar que ele é um pervertido tarado, que simplesmente dormiu ou ao menos cortejou todas as mulheres que apareceram no livro. E ele ainda narra algumas destas cenas de pura perversão, onde ele usa a palavra com “B” para referir-se ao órgão sexual feminino. 
Outra coisa ruim, que tornou o livro cansativo e me fez demorar “anos” para terminá-lo, foram os detestáveis fatos da política soviética, que são narrados nos mínimos detalhes possíveis. Sem contar que cada personagem destes fatos cansativos, tinha nomes soviéticos, terminados com “chev”, “kovski”… Insuportável.
O protagonista faz diversas analogias, de fatos que estão acontecendo com fatos relatados em livros ou filmes. E ainda diz o nome do diretor, escritor, roteirista de tal obra, os quais eu simplesmente não conheço nenhum. Ou seja, essas partes entraram por um ouvido e acabaram por sair pelo mesmo. Não consegui absorvê-las, e nem fiz questão de fazê-lo.
“A visita de uma velha senhora.” Uma história de Durrenmatt estragada por Bernhard Wicki.
Não apenas o cineasta-sem-nome é louco neste livro. Ainda temos outros exemplos como a própria Liliana, e Mitiko – uma moça que ajudou o protagonista em certa parte da história.
“Quero me vestir de homem e fazer uma mulher se apaixonar por mim pensando que sou um homem”, disse Mitiko.“Pois eu quero que um homem se apaixone por mim pensando que sou mesmo um homem”, disse Liliana.
E o fim é meio dramático. Toda a decepção dele ao descobrir que o livro do qual esteve atrás boa parte da história, na realidade não existe, o fez acabar a vida agarrado a um poste na rua e divagando que o mundo é feito de vastas emoções e pensamentos imperfeitos.
Enfim, considerei o livro regular. Não serve como ruim, pois tem toda a essência de: O que acontece com um homem após sua vida ter perdido completamente o sentido? Porém está bem longe de ser um livro bom, o qual eu sinta vontade de ler outra vez. Não sei se agradará alguém, mas quem desejar ter a experiência de ler um livro diferente, eu aconselho a dar uma olhada. Já se você não tem paciência para cenas explícitas de falta de pudor ou cansativas de política soviética, não cheguem nem perto dele.
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